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"Idol I": quando a admiração vira cegueira na indústria do K-pop

Drama jurídico da Netflix destaca a desumanização de artistas na indústria musical sul-coreana


Idol I
(Divulgação / Netflix)

Em uma indústria movida por imagens perfeitas, narrativas romantizadas e uma relação intensa entre artistas e público, o K-drama Idol I se destaca ao escolher olhar para o lado menos confortável da cultura idol. Em vez de alimentar fantasias de romance perfeito e uma falsa sensação de intimidade, a série convida o público a refletir sobre como a admiração pode escorregar para a romantização excessiva e a idealização extrema, entre os fãs e seus ídolos.


Exibida entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, a produção aposta na combinação entre suspense, drama jurídico e romance para tensionar esse debate. A trama utiliza um crime como ponto de partida, mas rapidamente amplia seu foco para discutir estruturas mais profundas da indústria do entretenimento sul-coreano, onde a imagem pública é cuidadosamente moldada para gerar apego no fandom e, muitas vezes, fazê-lo ignorar ou minimizar problemas reais.



Ao trazer esse conflito para o centro da narrativa, Idol I dialoga diretamente com casos que extrapolam a ficção e aparecem com frequência no noticiário. A construção de imagens impecáveis, alimentada pela indústria e reforçada pelo fandom, contribui para que muitos fãs se apeguem a uma versão idealizada de seus ídolos e passem a relativizar comportamentos problemáticos, silenciar críticas ou até desacreditar vítimas. A série, então, lança a pergunta que atravessa toda a história: em que momento a admiração deixa de ser afeto e se transforma em conivência?



Uma reflexão sobre a realidade


A trama acompanha Maeng Se-na, uma advogada criminalista temida nos tribunais por aceitar casos considerados “impossíveis” — aqueles envolvendo criminosos rejeitados por outros profissionais da área. Conhecida como a “advogada dos vilões”, ela construiu uma reputação impecável, com uma taxa de sucesso que beira o absoluto. O que ninguém imagina é que, longe do ambiente jurídico, Se-na leva uma vida dupla: há mais de uma década, ela é uma fã dedicada de um grupo de K-pop extremamente popular.


O choque entre esses dois mundos acontece quando Do Ra-ik, vocalista principal e visual do grupo Gold Boys, se torna o principal suspeito de um assassinato ocorrido em sua própria casa. Abalada, mas racional, Se-na decide esconder sua admiração e assumir o caso, convencida de que seu ídolo é inocente. No entanto, à medida que a investigação avança, a advogada descobre que o homem que ela idolatrava no palco é muito mais complexo — e humano — do que a imagem cuidadosamente construída pela indústria e pelo fandom permitia enxergar.



Personagens, atores e suas camadas


Interpretando Maeng Se-na está Choi Soo-young, integrante do Girls’ Generation e uma das idols que mais consolidaram carreira sólida como atriz. Ao longo dos anos, Soo-young transitou por produções como If You Wish Upon Me (2022) e Not Others (2023), frequentemente dando vida a mulheres fortes, mas emocionalmente complexas. Em Idol I, essa dualidade atinge um novo patamar: sua personagem representa o conflito entre razão e idolatria, profissionalismo e afeto, justiça e projeção emocional.


Idol I
(Divulgação / Ten Asia)

Kim Jae-young assume o papel de Do Ra-ik, um idol exausto de viver sob vigilância constante. Conhecido por trabalhos como Love in Contract (2022) e The Judge from Hell (2024), o ator constrói um personagem que rejeita abertamente a lógica da posse imposta pelos fãs mais extremos. Ra-ik odeia sasaengs, teme a perda de privacidade e vive pressionado por expectativas que o impedem de existir fora do personagem público. A série acerta ao não romantizar esse sofrimento, mostrando como o isolamento emocional é uma consequência direta da fama.


O elenco de apoio reforça o embate ético da narrativa. O promotor Kwak Byung-gyun, rival acadêmico de Se-na, simboliza a frieza institucional da justiça, enquanto figuras como a ex-namorada de Ra-ik e os outros membros do Gold Boys ajudam a expor como um escândalo não atinge apenas o idol acusado, mas toda uma rede de pessoas — colegas, fãs e familiares.


Quando a ficção encontra os casos reais


Embora Idol I seja uma obra ficcional, os conflitos que movem a narrativa dialogam diretamente com comportamentos já naturalizados dentro do K-pop. A construção de idols como figuras impecáveis, emocionalmente disponíveis e moralmente irrepreensíveis cria um terreno fértil para a ilusão. Casos de sasaeng fans, por exemplo, não surgem apenas da obsessão individual, mas de uma cultura que estimula a ideia de proximidade e pertencimento. Em janeiro de 2026, uma fã brasileira foi presa na Coreia do Sul após violar uma ordem de restrição e ir repetidas vezes à casa de Jung Kook, do BTS. Antes disso, fãs de diferentes nacionalidades já haviam tentado invadir a residência do cantor, mostrando como a imagem pública cuidadosamente construída pode ser interpretada como permissão para ultrapassar limites.


Essa mesma lógica aparece quando comportamentos problemáticos são relativizados ou apagados para preservar a fantasia em torno do idol. O escândalo do Burning Sun, que teve Seungri, ex-integrante do BIGBANG, como um de seus principais nomes, revelou como fãs podem optar por negar evidências, desacreditar vítimas e tratar crimes comprovados como perseguição midiática. Mesmo após condenações judiciais, ainda há quem minimize os fatos para manter intacta a figura do idol, demonstrando como a idolatria pode se transformar em uma recusa ativa de encarar a realidade.



O mesmo padrão se repete no caso de Lucas, ex-integrante do NCT e do WayV, acusado de manipulação emocional e exploração financeira de fãs. Apesar do pedido público de desculpas e do hiato nas atividades, parte do fandom segue tratando as denúncias como exagero ou conspiração, direcionando ataques às pessoas que expuseram os relatos. Esses episódios escancaram o ponto central debatido por Idol I: quando a imagem do idol se torna mais importante do que a verdade, a admiração deixa de ser afeto e passa a funcionar como mecanismo de apagamento e cumplicidade.


A problemática da desumanização dos idols


O cerne de Idol I não está apenas no crime que move a narrativa, mas na forma como a indústria e os fandoms constroem ídolos inalcançáveis e, a partir disso, passam a relativizar qualquer atitude que ameace essa imagem. No K-pop, a idealização extrema transforma artistas em símbolos de perfeição moral, o que faz com que fãs não apenas se sintam donas de suas escolhas, mas também passem a justificar, minimizar ou negar comportamentos problemáticos para preservar a fantasia que consomem.


Essa lógica se torna ainda mais perturbadora quando a série coloca uma fã no papel de defensora legal de seu próprio ídolo. Ao longo do processo, Se-na é confrontada com fatos que entram em choque direto com a imagem idealizada que construiu. O drama evidencia como a devoção cega pode levar fãs a “passar pano”, reinterpretando a realidade para que ela continue cabendo na narrativa confortável do ídolo perfeito — mesmo quando isso significa ignorar vítimas, sinais de violência ou responsabilidades éticas.



Ao escancarar esse mecanismo, Idol I rompe com a noção romantizada de fandom e expõe suas consequências mais perigosas. Idols deixam de ser vistos como pessoas reais, com falhas e capacidade de causar danos, e passam a ser tratados como entidades que precisam ser defendidas a qualquer custo. A série aponta como essa desumanização funciona nos dois sentidos: enquanto o ídolo é elevado a um pedestal, tudo ao seu redor — inclusive a verdade — pode ser sacrificado.



Mais do que um suspense jurídico, Idol I se afirma como uma crítica incisiva a uma cultura que confunde amor com cegueira e admiração com cumplicidade. Ao provocar desconforto e questionar atitudes frequentemente normalizadas dentro dos fandoms, o drama obriga o público a encarar uma pergunta incômoda: até que ponto a idolatria justifica o silêncio? Para quem acompanha o K-pop de perto e se dispõe a ir além do entretenimento fácil, a série oferece uma reflexão dura e necessária sobre os limites do fandom.

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