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D.P. Dog Day: O quão realista é o dorama? Ex-soldados coreanos têm opiniões divididas

Atualizado: 21 de jan. de 2023

O K-drama da Netflix estrelado por Jung Haein ganhou muita atenção na Coreia do Sul por relatar abuso de poder e tratamento severo no exército

(Reprodução/Netflix)

D.P. Dog Day foi um dos grandes sucessos de 2021 na Netflix e chamou atenção ao mostrar uma realidade do exército coreano que a audiência ocidental provavelmente não conhecia o suficiente. Mas até onde a história reflete a vida real dos homens que se alistam no serviço militar na Coreia do Sul?


Estrelado por Koo Kyohwan e Jung Haein, protagonista de Snowdrop, o dorama acompanha An Junho, um rapaz de origem humilde que trabalha com entregas em restaurantes para guardar dinheiro e sustentar a família enquanto estiver fora, como soldado, por dois anos. Quando chega seu momento de se alistar no exército, tem dificuldades em se adaptar ao ambiente, aos chefes rígidos e aos colegas de serviço.


Embora tente seguir e cumprir ordens até o fim de seu período de alistamento, An Junho se torna um dos alvos de bullying em sua base — situação comum e degradante no local, cuja ocorrência é ignorada pelos superiores. Ao reagir a uma provocação causada por um “valentão”, sua estabilidade é afetada, mas um coronel percebe suas boas habilidades em desvendar pistas e o coloca para ir atrás de desertores e trazê-los de volta ao exército.


"D.P Dog Day traz um enredo sobre encontrar um desertor mas, ao mesmo tempo, é uma história paradoxal de procurar o infeliz filho, irmão ou amor de alguém", pontuou o diretor Han Junhee, na época do lançamento do k-drama.


Ao assistir o dorama, descobrimos que as razões para que os homens fujam do serviço militar são inúmeros: desde depressão até dificuldades financeiras. Durante os seis episódios da primeira temporada de D.P. Dog Day, o público é confrontado com questionamentos morais e se depara com as consequências do bullying e da exigência da masculinidade em um ambiente majoritariamente ocupado por homens.


Para entender o quão realista e literal é o enredo de D.P. Dog Day — que já teve a segunda temporada confirmada pela Netflix — o Café Com Kimchi conversou com diversos homens coreanos, entre 20 e 40 anos de idade, que se alistaram no exército em diferentes períodos. Contando sobre seus medos e o modo em que o serviço militar afetou suas vidas por dois anos, os rapazes entrevistados foram além da ficção, desmitificando conceitos e revelando o que mais nos interessa: as experiências da vida real.


Hierarquia e superiores que intimidam

(Reprodução/Netflix)

Há pouco ou nenhum sistema que funcione sem hierarquia, isso é um fato. Para que uma organização funcione, cada um deve ter sua função delimitada e, em uma dessas, há um grupo responsável por fazer com que todos cumpram com suas responsabilidades. No exército, uma das instituições mais tradicionais em diversos países, não seria diferente. Mas qual é o limite para que as pessoas com o poder nas mãos não se tornem um fardo para os subordinados?


Para Kim Minseok, de 26 anos, há certa hipocrisia na estrutura dentro do exército. Afinal, apesar da importância da hierarquia, não há como respeitar genuinamente alguém que você não conhece. De acordo com o ex-soldado, haviam chefes que passavam dos limites para justificar suas posições e se tornaram um incômodo para outros recrutas de sua base.


"No meu caso, houve muito atrito com meu chefe. Ele executava muitas ações que não eram compreendidas no nosso senso comum em nome de sua missão. Quando penso no comandante da nossa companhia, ele era tão ganancioso pelo poder que causou um trauma generalizado.”


“Somos pessoas com culturas, rotinas e emoções antes de sermos convocados para o exército.”

Em parte de seus 21 meses de estadia no exército, Minseok trabalhava com a remoção de minas e terras danificadas próximo à fronteira com a Coreia do Norte. O ex-soldado afirmou que o relacionamento com seus colegas do exército era difícil, mas não chegava nem perto das situações ocorridas no drama D.P. Dog Day.


"A relação de classe nas forças armadas é realmente a pior. É uma contradição colocar soldados recrutados, que não têm nenhuma conexão, em um só lugar e forçar camaradagem. Mas atos e hierarquias duras como em D.P. Dog Day desapareceram muito devido à inovação da vida militar quando fui um recruta. Não era tão severo."


E, de fato, há um movimento para que tais comportamentos nocivos sejam removidos da rotina militar. Semanas antes do lançamento da série coreana, o Ministério de Defesa da Coreia do Sul afirmou à agência de notícias Reuteurs que estão preparando medidas para acabar com o abuso de poder e tratamentos severos. Além disso, também planejam paralisar o sistema que obriga soldados a procurarem por desertores do exército — a mudança entrará em vigor em julho de 2022.


A Coreia do Sul mantém um efetivo militar de 550.000 homens, com 2,7 milhões de soldados em reservas, em meio a décadas de tensões com a Coreia do Norte. Todos os homens devem servir por até 21 meses, dependendo do ramo militar e a lei penal militar do país pune a deserção com até 10 anos de prisão.



Ainda segundo o Ministério de Defesa, o abuso e a deserção entre os recrutas caíram bastante desde 2019, quando passaram a permitir que soldados alistados usassem telefones no quartel. Apesar de terem se recusarem a confirmar o número exato de desertores, a mídia sul-coreana informou que 55 casos foram relatados em 2020 e 78 em 2019. As mortes militares por suicídio também caíram de 27 para 15 no mesmo período.


Kim Haneum, de 34 anos, se alistou em torno dos 20, quando o sistema militar era um pouco mais rígido do que é atualmente e o tempo de estadia também era maior. Na época, o ex-soldado se preocupava em como passaria dois anos longe de seu emprego, família e amigos. Além disso, também temia o convívio com pessoas desagradáveis.


“Eu me sentia intimidado o tempo todo [com meus superiores], mas não era tão sério como em D.P. Dog Day. Durante meu tempo, na minha divisão, não houve fugas, mas um dos rapazes se suicidou. Eu não o conhecia porque era uma pessoa em meio a outras duas mil. Era assim que lidávamos.”


“O exército é um lugar onde as pessoas sofrem”

(Reprodução/Netflix)

Quando recrutados, os homens sul-coreanos precisam deixar vidas pessoais, carreiras, família e relacionamentos para trás por um longo período. Apesar de ser uma obrigação no país e estes cidadãos estarem conscientes disso à vida inteira, toda e qualquer preocupação por parte deles são ignoradas, silenciadas por terceiros ou por eles mesmos — afinal, não há nada a fazer para mudar este destino.


Minki, de 31 anos, relatou que o medo é o sentimento mais recorrente para os jovens que estão prestes a se alistar. “Dramas como D.P. Dog Day e histórias contadas por amigos e familiares mostram que, na sociedade coreana, o exército é um lugar onde as pessoas sofrem. Então estava preocupado com isso há alguns anos antes de entrar.”


Artilheiro do exército entre novembro de 2008 e setembro de 2010, Inseok, de 32 anos, relata que era difícil ficar longe da família e perder sua liberdade por dois anos, mas estar no exército era ainda mais intimidador que a saudade de estar em casa. O motivo maior de sua preocupação era a hierarquia e o que as pessoas podiam fazer quando tinham poder nas mãos.


“Um dos meus veteranos era semelhante a um superior cruel no drama. As Forças Armadas da Coreia do Sul são um legado. Mesmo os veteranos maldosos do drama estão apenas devolvendo o bullying que receberam quando estavam em uma posição inferior para seus sucessores.”


Atualmente trabalhando como desenvolvedor de jogos online, um dos entrevistados não quis revelar o nome verdadeiro e pediu para ser citado como HK Kim. Com 34 anos, Kim esteve no exército em 2008 e sua estadia durou 22 meses. Suas dificuldades no exército foram inúmeras, incluindo a falta de espaço pessoal — por dividir quarto com outros 12 soldados —, e, apesar de estar rodeado de pessoas, enfrentou a solidão.


“Ninguém nunca realmente se importou com o que os soldados perdem para estar ali. Ninguém ficaria do meu lado se eu tentasse ignorar o serviço militar. Com ou sem violência física, você não consegue se livrar disso.”

Durante seu período de alistamento, HK Kim se deparou com muitos colegas que viviam constantemente desanimados e sem força. “Há muitas pessoas tentando ajudar quando alguém está deprimido lá dentro do exército, mas eles não podem lutar contra o sistema hierárquico.”


A diminuição salarial também é um problema durante o período militar. Choi Jaehyung, de 28 anos, afirmou que a questão financeira causava ainda mais preocupações do que suas experiências no quartel. “Eu pensava muito sobre o bullying e a solidão, mas sabe o que eu tinha mais medo? O salário. Mensalmente, eu ganho cerca de 5 mil dólares mas, durante meus dois anos de estadia no exército, eu recebi apenas 100 por mês para suprir todas as minhas necessidades lá dentro.”


“Todo mundo fica deprimido quando recebe 15 centavos por hora”, relata HK Kim.

Afinal, D.P. Dog Day é um dorama realista?

(Reprodução/Netflix)

A pergunta do milhão poderia ter sido respondida com os relatos acima? Talvez. Mas, a princípio, a trama é baseada em uma webtoon. Além disso, como é possível notar, as experiências diferem ao período em que os entrevistados se alistaram — devido às mudanças sociais e novas regras de convívio instauradas gradualmente à rotina militar. Por isso, nada melhor do que entender, da boca de nossas fontes, se D.P. Dog Day é realista ou reproduz comportamentos que pertencem apenas ao passado.


“O pano de fundo de D.P. Dog Day retrata a época em que a consciência dos direitos humanos dos soldados não era muito alta”, conclui Kim Minseok.


Minki também concorda e afirma que não viveu nada tão intenso quanto os momentos cruéis mostrados no dorama da Netflix. “O exército em que fiquei nunca teve a mesma situação que D.P. Dog Day. Nós nos respeitávamos como seres humanos e fizemos amizades. Eu era próximo tanto dos subordinados quanto dos chefes. Alguns ainda mantêm contato comigo mesmo depois de 10 anos.”


“Há muita mídia sobre os militares na Coreia do Sul, mas só esse drama conquistou a simpatia de muitas pessoas. Até algum tempo atrás, algumas pessoas acreditavam que surras e palavrões eram necessários.”

Changmin, de 23 anos, esteve no exército recentemente por um ano e nove meses e relata: “D.P. Dog Day é uma história muito antiga. A punição corporal não é tão severa hoje em dia.” Enquanto Inseok, que vivenciou a experiência há 12 anos, tem memórias mais agressivas de seu alistamento e chegou até mesmo a sofrer estresse pós-traumático (PSPT) depois de assistir ao K-drama estrelado por Jung Haein.


“Eu acho que é um drama muito realista e bem feito. Nada parecia irreal. Talvez entre os homens coreanos que serviram nas forças armadas, muitos devem ter tido PSPT depois de assistir ao drama. Eu tive. Porque o exército em que eu estava era muito parecido com a ficção.”

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