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[Opinião] Idols muito jovens e debut precoce no K-pop: Quando números vão além dos charts

Com idols cada vez mais novos debutando, uma preocupação cresce em meio aos fãs

(Reprodução / ADOR / SM Entertainment)

Q. Oppa, eu fiz várias audições mas ninguém me chama… Eu nasci em 2003 mas eles me dizem que é tarde demais. Eles estão certos?
A. Eu entrei [no BTS] quando eu tinha 20 anos. Mas eu acho que as crianças de hoje em dia começam cedo demais

Em 2021, Jin do BTS começou uma discussão dentro do próprio fandom: quão novo é novo demais para ser introduzido à indústria? A fanbase ARMY nunca teve a questão da idade dos membros como uma constante. Jungkook, o membro mais novo do grupo, debutou aos 16 anos e se formou no ensino médio depois de se tornar um ídolo de K-pop. A idade do maknae — nome dado aos integrantes mais novos — nunca se mostrou um problema àquela época. Kai e Sehun, maknaes do EXO, debutaram aos 17.


Por isso, quando olhamos para as idades de idols recém debutados, existe um certo choque. A integrante mais velha do NewJeans, grupo da 4ª geração, nasceu em 2004 e tem 18 anos. A mais nova é de 2008, tendo 15 anos. A Leeseo do IVE debutou aos 14 anos com Eleven junto de suas companheiras de grupo. Jisung, do NCT e NCT Dream, também aos 14. Por que existe essa obsessão da indústria do K-pop com trainees e idols tão novos?


Na contrapartida, o contrário também existe. À medida que novos grupos vão debutando e as gerações vão se formando, temos deixado de ver idols mais adultos, após os 20 anos de idade, debutando. Chega a existir até uma certa rejeição a esses idols, e o que acabamos percebendo é que o K-pop, como indústria, disponibiliza uma espécie de data de expiração para seus empregados.


Para esse artigo de opinião especial para o Café com Kimchi, eu pesquisei mais sobre a história do K-pop e sobre normas culturais na Coreia do Sul e tentei entender o que exatamente cria essa relação entre a indústria musical e a idade dos idols. Também conversei com a Juliana Capel (@julianaacapel no Instagram), psicóloga que cria conteúdo relacionado a K-pop e K-dramas, para entender o ponto de vista de um profissional sobre esse tema. Você pode ver isso tudo logo após a publicidade:



Neste ano de 2023, a solista (ex-Wonder Girls, ex-4Minute) HyunA faz 16 anos de carreira, tendo somente 31 anos. Metade da vida dela foi passada em salas de ensaio, palcos de music bank, e fansigns com os fãs e restante do grupo. Seu debut aos 14 anos com Irony, uma canção bem sucedida que veio acompanhada de mais e mais aparições em programas, e depois no 4Minute, que veio a se tornar um dos grupos mais famosos da geração, contribuíram para que o início da adolescência da idol fosse conturbado. Em entrevista recente à Cosmopolitan, perguntaram a ela o que ela gostaria de dizer à sua 'eu' de 15 anos:


“Eu quero dizer a ela para comer bastante comida. Você precisa comer direitinho para que seu corpo e cabeça possam te sustentar.”

Na mesma entrevista, ela falou sobre o NewJeans e sobre as preocupações que ela tem com as integrantes:


“Eu vejo o NewJeans com muito carinho. Fico me perguntando se elas estão comendo direito [...] porque elas precisam usar camisas curtas, e se elas estão descansando. [...] Meninas do NewJeans, comam bastante comida coreana e não se esqueçam de tomar vitaminas. E eu espero que tenha pelo menos uma pessoa em quem vocês possam confiar.”

Existe muita preocupação em meio aos fãs de K-pop com as integrantes do NewJeans. Sendo meninas super novas e inseridas numa indústria que não é exatamente conhecida por tomar conta daqueles que estão envolvidos nela, é natural que a questão da idade seja uma existente em todos os fandoms. Apesar de ambas Hyuna e maknae do NewJeans terem debutado na mesma idade, o contexto em que cada uma cresceu é diferente. 2007 e 2021 tem 14 anos de diferença entre eles, e a indústria mudou mais do que pode ser descrito. O modo com que a internet se integrou ao K-pop criou novos fenômenos, novas maneiras de promover e novos jeitos de se relacionar com os fãs, mas também facilitou a comunicação para o lado ruim.



A autoestima e cabeça de um adolescente são mais fracas por natureza, sendo muito mais suscetíveis a críticas e comentários maldosos, algo que parece ser mais fácil de se ver e fazer hoje em dia. Juliana Capel, psicóloga especialista em psicologia positiva e criadora de conteúdo sobre K-pop, concorda que o período da adolescência é delicado: “No processo de se tornar um idol, há influências que podem causar sequelas por toda a vida daquela pessoa. Um pensamento autodepreciativo pode se instalar ao ponto de gerar uma sensação de insuficiência muito grande, além da perda de privacidade.”



A perda de privacidade foi um ponto muito comentado quando Taemin, do SHINee, se alistou ao exército. Foi comentado que seus momentos no banheiro eram interrompidos por outros que queriam “espiar” e acompanhar o que ele fazia porque se sentiam no direito de continuar acompanhando a vida dele como haviam feito pelos últimos dez anos de carreira dele. Taemin foi um dos idols que foram expostos à essa cultura cedo demais e perderam partes do crescimento que seriam consideradas normais. Outros integrantes do SHINee já conversaram sobre como eles se revezavam para fazer brincadeiras com o Taemin, já que ele não teria essa experiência não fosse pelos membros, o tempo livre sendo gasto com ensaios e mais ensaios. “Há uma série de mudanças na fase da pré-adolescência para a adolescência em si, que no ciclo natural já ocasionam muitos questionamentos, um sofrimento emocional e uma nova forma de se relacionar consigo”, Juliana comenta, “ainda mais em uma sociedade como a coreana, onde a cobrança por excelência e perfeição é algo tão enraizado.”


Naturalmente, se entende que a Coreia do Sul gosta, enaltece e prefere pessoas jovens. O tempo de vida dos idols é muito curto, dando origem a piadas como a “maldição dos sete anos” para os grupos femininos e a famosa “ida ao porão” quando os integrantes atingem uma certa idade. A situação piora quando lembramos dos contratos que os trainees assinam quando são novos, praticamente entregando o controle sobre sua juventude para uma empresa. Vemos idols cada vez mais novos debutando, mas os mais velhos seguem parados, mesmo quando se mostram capazes de muitas habilidades. O Hui, do Pentagon, fez parte do Boys Planet, survival show para trainees masculinos, e foi criticado, principalmente por conta da sua idade. Aos 29 anos, Hui não é mais visto como uma celebridade que pode continuar em seu trabalho e carreira.


(Reprodução / Vogue Korea / SM Entertainment)

Aos 29 anos, porém, Hui não é mais tão maleável como era aos 19. “Uma pessoa mais velha costuma ser mais experiente, tende a pensar por conta própria, não cedendo totalmente às vontades dos fãs e da empresa”, Juliana concorda, e isso é claramente algo ruim para a indústria, visto que ela se beneficia de novidade. O capital do K-pop vem da fantasia que é vendida aos fãs, que você pode crescer junto dele, que esse relacionamento parassocial é ainda mais verdadeiro por conta das idades próximas. Mas o que as empresas esquecem é que muitos dos fãs são fãs há um certo tempo, e tem algo de estranho em ver adolescentes que nasceram depois de você subindo em palcos e comentando sobre as aulas de canto que duram cinco horas.


Em meio às piadinhas sobre os integrantes mais velhos dos grupos serem idosos e ao constante culto à pouca idade, o K-pop nos faz ganhar os mesmos pensamentos dela. Quando foi que a BoA, que ainda sobe em um palco e é tida como center, se tornou “antiga” demais para a indústria que, de certa forma, ela criou? Por que não é mais comum vermos idols como a Kahi, ex-After School, que debutou aos 29 anos e segue ativa, mesmo depois de um casamento e filhos? Os idols sacrificam metade da vida para se tornarem especialistas em uma arte, e os consumidores os jogam fora quando eles finalmente atingem a idade que realmente os faria profissionais.



Infelizmente, não tem uma maneira de mudar a cultura de um país que não nos reflete. Não existe conscientização ou campanha que faça séculos de história se transformarem em algo novo do dia para a noite. Juliana concordou comigo quando conversamos sobre a primeira e segunda gerações do K-pop, quando a cobrança extrema já era enraizada, mas que houve uma piora à medida que os anos passaram: “Hoje tudo é muito mais exposto. As pessoas se sentem no direito de opinar sobre tudo e todos a todo momento, sem pensar nas consequências desses atos. Os impactos [...] ganham dimensões gigantescas nesta nova era da tecnologia.” Porém, também é difícil dizer que a chave da mudança é a criação de idols mais velhos, apesar de que uma cláusula etária nos contratos e uma maior preocupação com os anos de formação de um idol seriam bons começos para um pequeno avanço — “[...] mas uma investigação mais a fundo, não somente sobre os talentos e habilidades, mas sobre personalidade também. Uma nova forma de contratação seria uma boa ideia, trabalhando a pessoa na sua integralidade, não apenas como produto para a empresa.”


Agora, nós, fãs, podemos mudar a situação? A resposta é: não.


Uma indústria multimilionária como a do K-pop tem diversas formas de lucro sem o apoio dos fãs. Além do mais, é difícil chegar a um consenso quando existem tantas opiniões dissonantes dentro de um grupo só, ainda mais um tão grande como esse que fazemos parte. É bom lembrar que o que é mostrado não é a realidade e que nós precisamos, sim, de um pouco de visão crítica para consumir esses produtos. Mas também precisamos aceitar que algumas batalhas são longas e cansativas demais para interferirmos. Juliana confirma: “Compreender que são realidades distintas e absorver o que cabe a nós é um exercício diário.”


Ei, pelo menos o NewJeans tem comeback marcado. Vai dar stream?




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