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[Resenha] Entre amor e perda, "Um Amor de Despedida" encontra cura e conforto após o luto

Com um enredo que aborda arrependimentos, luto e novas chances, Um Amor de Despedida, de Seo Eun-chae, chegou ao Brasil pela Intrínseca



(Divulgação/Intrínseca)

E se a morte viesse nos visitar na forma de quem amamos? Seria possível que um segundo encontro bastasse para dar uma nova perspectiva à vida? Ou o luto deixa uma ferida tão profunda que talvez jamais possa ser curada? É nesse contexto que Um Amor de Despedida toma forma, misturando fantasia, drama e um laço tão forte que resiste até mesmo à morte.


Um Amor de Despedida, de Seo Eun-chae, chegou ao Brasil pela Intrínseca no começo do mês. O livro, com 208 páginas, deu origem ao k-drama homônimo, estrelado por Kim Min-ha (Pachinko) e Gong Myung (Filing for Love), disponível no VIKI em seis episódios. Ainda assim, talvez o drama esteja longe de refletir por completo a escrita sensível de Eun-chae, que transporta o leitor para uma jornada em que dor e cura se misturam ao longo das páginas.



Uma nova chance com uma lista para sete dias


O leitor acompanha a perspectiva de Heewan, uma jovem que carrega a culpa pela morte do melhor amigo de infância e primeiro amor. Há seis anos, Ramwoo se sacrificou para salvá-la de um acidente de carro, e a culpa deixou uma marca tão profunda na vida da jovem que ela acredita viver às custas da vida daquele que iluminou seus dias desde o primeiro encontro. Por se considerar responsável pela tragédia, Heewan nunca foi capaz de seguir em frente: vive reclusa, tem pouco contato com o pai, não construiu amizades na universidade e sai de casa apenas quando necessário.


Um dia, a notícia da morte surge na forma de quem ela mais ansiava rever — mas não da maneira que imaginava. O reencontro entre Heewan e Ramwoo, uma viva e o outro morto, dificilmente poderia significar algo bom. Agora como Ceifador, cabe a Ramwoo informar que Heewan tem apenas sete dias de vida e que, para ter um fim tranquilo, precisa chamá-lo pelo nome três vezes. Uma tarefa simples, mas que Heewan se recusa a cumprir, acreditando que sua alma não merece paz após o acidente ocorrido seis anos antes.


Ramwoo tem pela frente uma missão árdua: ajudar Heewan a completar, em sete dias, uma lista de coisas que ela nunca fez, por exemplo, fazer amigos, dizer “eu te amo” ao pai e sair em um encontro. Além disso, ele também precisa convencê-la a chamar pelo seu nome. Por trás de tarefas aparentemente simples, existe um objetivo maior: fazer com que a melhor amiga se liberte da culpa e volte a encontrar sentido na vida, mesmo sem ele ao seu lado, aprendendo a viver o presente, já que o amanhã é imprevisível.



Por outro lado, os capítulos quebram as expectativas criadas pela sinopse, mas de forma positiva. A narrativa não se concentra apenas na perspectiva de Heewan, embora ela seja o centro dos acontecimentos. Um Amor de Despedida faz o leitor acreditar que seguirá por um caminho específico, apenas para revelar, logo em seguida, novas camadas escondidas e abrir espaço para uma história muito maior do que parecia à primeira vista. Mesmo que saibamos desde cedo como tudo pode terminar, a leitura está longe de ser previsível e reserva novas revelações e curiosidades a cada capítulo.



Mais do que acompanhar os dias finais de Heewan, a obra também mostra como a perda de Ramwoo afetou as pessoas ao redor dos dois protagonistas. Os capítulos se dividem entre as perspectivas de Heewan, da mãe de Ramwoo, de alguém fortemente ligado ao passado dos dois, de uma amizade improvável e do próprio Ramwoo, desde momentos da infância até sua transformação em Ceifador. E mostra como todos está fortemente conectados de alguma forma.


O não dito é a parte mais dolorosa no luto


A primeira impressão que temos é que o livro se concentrará na passagem de Heewan e em tudo que Ramwoo a ajudará a fazer em sete dias. Mas, conforme os acontecimentos avançam, o leitor fica com uma pulga atrás da orelha sobre o quanto o Ceifador realmente está falando a verdade e se existe mais do que sabemos. E realmente há algo especial na forma como Ramwoo insiste para que Heewan viva experiências que nunca teve a chance, sem cair nos clichês comuns de romances dramáticos.


A relação dos personagens é muito bem construída, principalmente entre os protagonistas, que além de amigos de infância, se amavam, mas sofrem com palavras e sentimentos que nunca puderam ser expressos em sua plenitude. O livro apresenta desde o primeiro encontro até momentos importântes da infância e adolescencia, além do fatídico acidente. É uma construção bonita de acompanhar por mostra como eles sempre se completaram; ao mesmo tempo, dolorosa, já que sabemos que os dois nunca terão a oportunidade de viver esse amor plenamente.


A escrita sabe transmitir a sensação sufocante de perceber que ambos adiaram por tempo demais a coragem de admitir esses sentimentos um ao outro, até que já não existisse mais a chance de vivê-los plenamente. Quanto mais o tempo passa, mais distante esse sentimento parece ficar, não por deixar de existir, mas por nunca ter sido dito no momento certo. O livro, inclusive, traz uma passagem linda sobre isso:


"Eu me lembro de uma passagem de um livro que li. Dizia assim: 'Não se deve adiar o eu te amo'. Quando não o dizemos porque existe o amanhã, ou porque existe o dia depois de amanhã, estamos afastando-o cada vez mais. Se eu a amo mesmo, então deveria fazer mais esforço do que tenho feito"

A partir dessas palavras nunca ditas que Ramwoo passa a ajudar Heewan a viver experiências que ela nunca teve a oportunidade de viver antes, durante esses últimos sete dias, como se tentasse mostrar que há coisas que precisamos nos esforçar para fazer e não afastá-las, porque talvez o amanhã nunca exista.



Posso adiantar que o Ceifador tem sucesso em sua missão. Ele consegue dar um novo sentido à vida de Heewan e acompanhamos a evolução da personagem nos capítulos finais, quando, depois de tanto tempo, ela finalmente volta a encontrar um motivo para viver. Passamos tanto tempo lendo sobre sua dor, que no final podemos dar um suspiro de alívio ao vê-la com uma perspectiva diferente.


A memória é essencial em um Amor de Despedida


Além do enredo instigante, Seo Eun-chae também constrói uma obra extremamente fluida. A leitura é rápida, com pouco mais de 200 páginas, capítulos curtos e parágrafos simples, focados principalmente nos diálogos e nas reflexões dos personagens. Apesar de abordar temas delicados, o livro não se torna exaustivo ou pesado. Pelo contrário: o tempo passa rápido quando se está imerso em Um Amor de Despedida.


A estrutura narrativa de Um Amor de Despedida pode causar certo estranhamento no início, até que o leitor se acostume ao ritmo da obra. Em um momento, a narração está focada no presente; no outro, retorna aos acontecimentos de seis anos atrás e, poucas páginas depois, mergulha em lembranças ainda mais antigas. O livro utiliza diversos flashbacks para construir, aos poucos, tudo o que envolve os personagens e suas relações.



A escolha funciona perfeitamente, já que logo percebemos que nenhuma nova informação sobre os personagens está ali por acaso. Cada revelação acrescenta mais contexto a determinados momentos e ajuda a entender como os acontecimentos se conectam entre si. Diferente de muitos livros que se alongam excessivamente no passado, aqui as memórias são parte fundamental para o desenvolvimento e a compreensão dos personagens, amarrando todas as pontas da narrativa.


Não é fácil dizer adeus a Um Amor de Despedidas


Um Amor de Despedida mostra como Seo Eun-chae soube tratar essa história com grande delicadeza e leveza. O leitor não espera ser tão impactado pela narrativa até se perceber completamente imerso nela. É impossível não se emocionar conforme as páginas avançam e, ao mesmo tempo, sentir a dor quase sufocante da protagonista diante de uma situação que não pode ser alterada. Por mais que alguns acontecimentos abram espaço para elementos fantasiosos e até certa romantização, a morte é como é.



Acompanhar um amor impossível já é agoniante, mas um amor separado entre a vida e a morte se torna ainda mais doloroso. Ainda assim, a maneira como Heewan consegue reconstruir a própria vida oferece um fio de esperança de que é possível aprender a lidar com essa dor quando ela chega. Por isso, acredito que Um Amor de Despedida pode ser considerado um verdadeiro comfort/healing book, já que por mais desafiador que seja falar sobre luto, a leitura também aborda cura, amor e cuidado com muita sensibilidade.


Acredito que poucos livros despertaram sensações tão intensas em mim quanto Um Amor de Despedida. É uma obra que sabe exatamente como provocar emoções profundas no leitor e se torna aquele tipo de leitura que permanece com você mesmo após a última página. De fato, uma obra inesquecível.

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