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“De Volta aos Anos 90” é um retrato das dificuldades dos imigrantes e de uma família coreana

O livro de Maurene Goo cria reflexões sobre a relação entre mãe e filha, e evidencia o preconceito contra asiáticos


Capa de "De Volta aos Anos 90", desenhada pela artista Ing Lee.
(Reprodução / Companhia das Letras)

Todo mundo já teve uma briga bem feia com o pai ou a mãe, e ficou se questionando “por que raios a minha família é assim”, certo? Esse é o mesmo questionamento de Samantha Kang no livro De Volta aos Anos 90, lançado pela Editora Companhia das Letras/Seguinte no final de outubro. Na história, a personagem terá a oportunidade de viver o passado dos familiares e ter um vislumbre dos motivos que levaram sua criação a ser do jeito que é.


No romance, a autora coreana-americana Maurene Goo explora os desafios de ser um imigrante em uma terra desconhecida e, claro, a esperança do “sonho americano” que muitos coreanos tinham o viajar para aos EUA. Para quem gosta de livros e filmes com a temática de viagens no tempo, com certeza vai gostar bastante deste título.



Maurene Goo usou e abusou de características da atualidade, como os carros de aplicativo, as redes sociais e os podcasts, para construir a história de Samantha e de Priscilla, sua mãe; mas sem perder o espírito clássico dos anos 90 e das histórias que já conhecemos por abordarem as viagens à épocas longínquas. Assim, confira abaixo as impressões a respeito do livro que o Café com Kimchi recebeu da Companhia das Letras:


ATENÇÃO: O texto pode conter alguns spoilers da obra.



De Volta aos Anos 90 é uma viagem no tempo para salvar relacionamentos


Livro "De Volta aos Anos 90" de Maurene Goo.
(Café com Kimchi / Reprodução)

De Volta aos Anos 90 se passa nos tempos atuais e acompanha a adolescente Samantha Kang, filha de coreanos-americanos, que vive de forma americanizada, mas com alguns aspectos da cultura coreana — mais por conta da avó que dos pais. Como qualquer adolescente, Samantha vive com a pressão de estar no último ano do ensino médio e enfrentar as admissões nas universidades, em especial por ainda não saber o que quer fazer profissionalmente e ter que lidar com discussões sobre o tema com a mãe.


As brigas são constantes e acontecem em momentos inoportunos. E após uma dessas brigas, talvez a maior de todas, Samantha pega um carro de aplicativo e é transportada para o passado. Nisso, ela terá que completar a missão de ajudar sua mãe, a popular Priscilla Jo, a se tornar a rainha do baile naquela época — e de bônus resolver alguns problemas familiares pelo meio do caminho. A adaptação aos anos 1990, é claro, fará parte do desafio de Samantha em se manter nessa realidade paralela.



Durante a leitura, vivemos uma situação de déjà vu no momento em que Samantha é transportada para outra época. A viagem da heroína no tempo é bem parecida com o que acontece no filme Teen Beach Movie da Disney, e foi uma surpresa muito bem-vinda e de aquecer o coração daqueles que passaram a infância assistindo a esses filmes na televisão.



A respeito do que o enredo aborda, o cerne de De Volta aos Anos 90 envolve as relações interpessoais de uma família com raízes sul-coreanas. Somos lembrados constantemente da pressão familiar por conta dos estudos e a busca pela perfeição, já que o estigma de que asiáticos são vistos como "diferentes" e que precisam se destacar permeia a vida dos personagens. Eles lutam para serem reconhecidos além da aparência "dos olhinhos puxados” (como diria Priscilla, uma das figuras centrais do romance).


E outro aspecto da família coreana bastante levantado por Maurene Goo é a rigidez dos pais com a criação dos filhos, que devem ser obedientes e corresponder às expectativas colocadas sobre eles — algo que incomoda muito Samantha.


Maurene Goo também traz como um dos principais temas o racismo com pessoas asiáticas, mostrado de forma bastante acentuada nos anos 90. É marcante o momento em que somos lembrados de que Priscilla não anda com os demais asiáticos da escola, por não querer ser enquadrada como “mais uma” coreana e alguém que é deixada de lado. A vontade pelo reconhecimento e por ser diferente é uma das grandes marcas de De Volta aos Anos 90, e é uma característica que acompanha tanto a mãe quanto a filha na trama.


Além do mais, outro ponto interessante abordado no livro é a questão da dúvida e incerteza sobre o futuro; em relação à carreira, à família e também nos relacionamentos amorosos. Samantha Kang não sabe o que quer da vida e investe todo o verão no projeto do namorado, Curren, como uma forma de desafio aos pais que não aprovam o relacionamento. Ao ir para o passado, a personagem nota o quanto ela investiu de tempo em desejos alheios, e em algo que nem era tão importante para ela, afinal.




A relação entre mãe e filha que atravessa gerações


Arte de "De Volta aos Anos 90".
(Reprodução / Companhia das Letras)

De Volta aos Anos 90 explora as disparidades entre gerações em suas personagens principais. Logo no início do livro, Sam aparece como uma adolescente militante pelo meio ambiente e pelos direitos das minorias, e a personagem é contra vários dos aspectos instituídos e disseminados com o “sonho americano”, principalmente aos imigrantes. Um exemplo no romance são os clubes de campo, em que potenciais sócios precisam passar em entrevistas rigorosas que exigem padrões nas pessoas.


Por outro lado, há Priscilla, uma mulher na casa dos quarenta anos, privada de muitas coisas. Quando mais nova, ela precisava dividir o tempo entre a escola e a lavanderia da mãe e, simultaneamente, não se enquadrava nos padrões socialmente aceitos. Priscilla era uma das alunas mais populares do colégio, mas apesar disso, ela ainda era tratada de forma diferente pelos colegas e o namorado. A escritora Maurene Goo reforça, durante a estadia de Sam no passado, o quanto Priscilla precisa se esforçar para se manter entre os populares e não ser excluída como os outros alunos imigrantes.


As interações da Priscilla dos anos 90 com a Sam dos anos 2020 mostram o processo de compreensão entre as duas, mesmo sendo de gerações diferentes. O tempo todo, Priscilla reforça que acha Sam "estranha" por ir contra algumas situações que enfrentam na história, e por ficar indignada com coisas tão comuns no dia a dia daquela época — o que inclui se defender em pautas raciais. Conforme se aproxima mais da mãe adolescente, Samantha entende o porquê da relação entre filha, avó e mãe ser tão dolorosa para a Priscilla do presente.




A halmoni da Sam ocupa uma posição muito importante em De Volta aos Anos 90, além de ser a única pessoa em que Samantha, a primeiro momento, enxerga apoio. A conclusão da personagem principal de que a sua avó, tão amorosa, compreensiva e acolhedora, também foi extremamente rígida e severa com a mãe é a virada de chave que Sam precisava para tanto compreender e abraçar Priscilla na atualidade.


A super cobrança nos estudos e na vida


Não é segredo para ninguém que na Coreia do Sul a cobrança com os estudos é bem rígida. Inclusive, no dia do "ENEM" da Coreia, várias medidas são tomadas para não prejudicar os alunos — como a entrada no trabalho mais tarde e a mudança de rota de aviões e do trânsito para não se aproximarem dos locais de aplicação dos exames. No livro, Maurene Goo não fugiu do tema e fez questão de mostrar como que a cobrança escolar atravessa gerações, mesmo contra a vontade das mesmas.


Durante sua adolescência, Priscilla era a aluna nota dez da escola, e nunca deu qualquer tipo de trabalho aos seus professores. Porém, isso não era o suficiente para a atual vó de Sam, que achava que a filha devia se destacar e sempre se esforçar mais. Em um determinado momento da história, Priscilla confidencia a Samantha que se tivesse uma filha, ela nunca seria tão rígida quanto sua mãe fora. No futuro, a personagem mais velha acaba reproduzindo comportamentos sem nem perceber.


Assim, retomando à pergunta do início do texto: por que raios minha família é desse jeito? Como abordado em De Volta aos Anos 90, às vezes há muito mais por trás das histórias que nos são contadas; mas infelizmente, não podemos fazer como Samantha e voltar no passado para resolver tais questões. Entretanto, com certeza podemos tentar ser mais compreensivos com os nossos familiares que já viveram tanto, inclusive em épocas mais conservadoras que a nossa.



Você já leu o livro? Não se esqueça de contar para a gente e seguir o Café com Kimchi nas redes sociais!

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