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[Opinião] O que o Red Velvet e a Sofia Coppola têm em comum? Os retratos do female rage

Atualizado: 15 de dez. de 2023

A raiva feminina é um tópico frequente quando se trata da videografia do girlgroup, assim como a filmografia da famosa diretora de cinema; entenda o fenômeno


O female rage na discografia do Red Velvet e nos filmes de Sofia Coppola.
(A24/SM Entertainment/Columbia Pictures)

Ao retornar com o 3º álbum da carreira, denominado “Chill Kill”, o Red Velvet nos leva a mais uma viagem musical e visual que mistura humor, terror e um elemento crucial: a raiva feminina. O lançamento recente não é o primeiro a abordar a temática, seja através de MVs e suas respectivas faixas-título, ou até mesmo em algumas b-sides. Deste modo, pode-se dizer que o grupo possui uma trajetória interessante no que diz respeito a representar dramas e questões que envolvem mulheres como um todo sem perder a chance de entregar bons clipes e uma excelente discografia.



Contudo, o girlgroup não é o primeiro a abordar a temática através do audiovisual e um excelente exemplo é o trabalho da diretora, atriz e roteirista Sofia Coppola, cujo trabalho viaja entre tramas que retratam a raiva feminina — ou female rage, suas questões e nuances. Dentre uma filmografia aclamada, a diretora foi responsável por obras emblemáticas como: As Virgens Suicidas (1999), Maria Antonieta (2006) e o mais recente Priscilla (2023).



Entretanto, várias perguntas e questões pairam quando se trata de abordar os sentimentos particulares das mulheres de forma sincera e não estereotipada, em especial, quando a abordagem parte de uma mulher. O patriarcalismo que domina incontáveis sociedades se dá desde o continente americano até a Ásia e não se trata de um fenômeno particular e exclusivo, apesar de se dar de diversas formas.


Entretanto, a pergunta central é: O que o Red Velvet e a Sofia Coppola têm em comum quando se trata de abordar a raiva feminina no mainstream? Descubra logo a seguir nesta nova análise do Café com Kimchi!




O que é o tal do “female rage” no cinema?


O termo em inglês que pode ser traduzido de forma literal para “raiva feminina” é nada mais nada menos do que um retrato dos sentimentos conflitantes que as mulheres jamais foram autorizadas a sentir ou ao menos expressar em diversas sociedades de base ocidental e até mesmo, oriundas do continente asiático.


Sábia, calma, mãe, cuidadosa e entre outras expectativas são sempre associadas a figura feminina desde séculos passados, mesmo com os avanços das sociedades e incontáveis revoluções, nenhuma foi capaz o suficiente de tolerar a forma mais pura, sensível e bruta do que é ser uma mulher e todas as suas inconstâncias humanas.


Nos últimos 10 anos, filmes de diretoras mulheres que abordam este lado silenciado do ser mulher tem chamado cada vez mais a atenção do público. Produções cinematográficas como “Lady Bird (2017)” e “Barbie (2023)” da diretora norte-americana Greta Gerwig são ótimos exemplos, principalmente por serem películas bem sucedidas, e que foram capazes de passar mensagens bem claras sobre os sentimentos mais íntimos da mulheres e sua relação direta com o patriarcalismo predominante.


Apesar do recente sucesso do tópico nas telas de cinema, grupos femininos de k-pop já vinham desempenhando papéis interessantes no que diz respeito à disseminação de mensagens — ainda que muito sutis na maioria das vezes — sobre os sentimentos particulares da mulheridade, sua raiva e uma certa negação ao patriarcado como sistema dominante.


Podemos citar o icônico disco “Independent Women Part III” do miss A lançado em 2012 e considerado até hoje um marco na promoção de um discurso em prol da liberdade feminina, principalmente através da emblemática e controversa faixa-título “I Don't Need a Man (남자 없이 잘 살아)”. Visto que, em um país cuja misoginia histórica segue sendo fortalecida por fóruns online de homens adeptos ao discurso masculinista, artistas famosas se posicionarem com discursos pró-feministas é um grande tabu até os dias de hoje.





O female rage e sua sutileza na videografia do Red Velvet


Apesar dos muitos outros casos de grupos femininos que expressaram através de canções e videoclipes as nuances da raiva e dos sentimentos femininos, o Red Velvet tem desempenhado um papel admirável ao tornar a crítica algo divertido e quase cinematográfico desde o lançamento do icônico “Russian Roulette” no qual as integrantes expressam sentimentos diversos enquanto brincam com a morte em cenas dignas de um filme do Wes Anderson devido a simetria inegável.



Apesar de não abordar exclusivamente a raiva feminina, a canção  “One Of These Nights (7월 7일)” do disco “The Velvet” é uma belíssima homenagem aos falecidos na Tragédia da Balsa Sewol que ocorreu em 2014 e ceifou as vidas de mais de 200 crianças e adolescentes. No MV, as integrantes aderem a visuais mais sóbrios que chegam a remeter a contos de fadas, além das expressões faciais e corporais que indicam sentimentos relacionados a medo, temor, esperança e injustiça.



A belíssima e dramática sequência tem similaridades interessantes com algumas das cenas do longa-metragem “As Virgens Suicidas (1999)” de Sofia Coppola, devido à constante carga emocional transmitida pelas cenas apesar da sobriedade e delicadeza dos visuais e vestes das personagens. Apesar de não abordarem exatamente os mesmos temas, tanto o MV quanto o filme acabam entrando em consenso quando se trata de expressar a morte e a forma — muitas vezes contida — na qual as mulheres tendem a lidar com esse fator inerente da vida.

De certa forma, nos últimos lançamentos o Red Velvet tem abordado de forma mais cômica temáticas que giram em torno da morte em seus MVs, apesar das letras majoritariamente divertidas que nem sempre dialogam com o contexto. A partir do lançamento de “레드벨벳 '피카부 (Peek-A-Boo)” em 2017, a estética mais divertida passou por um rebranding — provavelmente uma espécie de amadurecimento estético que acompanha o crescimento das integrantes — com a adesão de temáticas mais próximas de filmes como “Jovens Bruxas (1996)” do diretor Andrew Fleming.



Neste ponto, o grupo que já era aclamado pelo público feminino por rejeitar os padrões do “cute concept”, “sexy concept” ou “girl crush” passou a ser ainda mais admirado ainda. Sem apelar para um girl power estereotipado e puramente comercial, o girlgroup passou a explorar ainda mais as emoções femininas nos lançamentos seguintes, em especial, com “레드벨벳 'Psycho”, faixa-título do disco The ReVe Festival: Finale lançado em 2019.



O clipe cuja mensagem supera completamente o ideal de “female fatale” e representa mulheres diante das confusões do que é se apaixonar completamente. A delicadeza dos visuais e a forma na qual as integrantes são retratadas entre a raiva e a inocência, algo que pode facilmente — se observado com cautela — remeter a “Maria Antonieta (2006)” de Sofia Coppola, estrelado por Kirsten Dunst no papel da jovem rainha da França e sua complexa relação com o marido e recém coroado rei Luis XVI.





O que Sofia Coppola tem a ver com isso tudo?


Assim como o girlgroup, a cineasta advém de um contexto no qual a misoginia e o patriarcalismo predominam quando se trata de representar figuras femininas em obras cinematográficas. Inúmeras vezes vemos homens e seus sentimentos de raiva e ira serem representados em grande obras e papéis do cinema, filmes como “O Poderoso Chefão (1972)” de seu pai, Francis Ford Coppola, retrata sem receios os altos e baixos de um personagem masculino cujas características raramente são associadas a protagonistas mulheres.


A própria Sofia chegou a abordar abertamente as razões pelas quais suas obras tendem a frequentemente abordar os processos particulares das mulheres de forma pura, com um protagonismo sincero e nada apelativo. Um dos motivos é o fato de ter crescido dentro da indústria cinematográfica em meio a incontáveis diretores, roteiristas e produtores misóginos — inclusive, seu próprio pai — o que a fez perceber que mulheres dificilmente teriam suas vozes ouvidas se continuassem sendo representadas pela visão masculinista.


Com o filme “O estranho que nós amamos (2017)” — um remake do clássico de Don Siegel e Clint Eastwood — a diretora se consagrou como a segunda mulher a vencer como melhor diretora na história de Cannes. E o que torna tudo ainda mais especial, é que o remake desconstrói as personagens femininas estereotipadas do longa original e dá vida a personagens femininas reais, profundas e complexas.



Assim como a videografia do Red Velvet, os filmes de Sofia Coppola em sua maioria abordam o processo de transição de menina para mulher. O amadurecimento em suas mais diversas nuances sem apelar para uma sexualização comercial, além de contarem histórias sobre os sentimentos e questionamentos mais puros presentes na vida de muitas mulheres em comum, experiências raramente são únicas.


A partir de “Ice Cream Cake”, disco de estreia do girlgroup lançado em 2015, as integrantes abordam uma juventude em fase de transição, em especial levando em consideração a faixa etária de Yeri na época, que tinha apenas 16 anos de idade. Seja nos conceitos mais coloridos até os mais obscuros como o recente “Chill Kill”, o grupo frequentemente toca na tecla de não se render às expectativas masculinistas que fundamentam os conceitos base dos girlgroups de k-pop.


Apesar de se pouparem de declarações públicas sobre apoiar ou não a causa feminista, Irene, Seulgi, Wendy, Joy e Yeri deixam claro em seus MVs a mensagem fora da caixa que se propõem a passar. Apesar das represálias do público masculino sul-coreano quando se trata de falar de feminismo ou de mulheres como protagonistas de suas próprias histórias.




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