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Review | Em A Única Saída, eliminar de vez a concorrência vale mais do que networking

Destaque da Coreia do Sul em festivais, novo filme do diretor Park Chan-wook já está disponível nos cinemas brasileiros


(Divulgação / MUBI)

As pessoas lidam com demissões de maneiras diferentes — seja como uma oportunidade de recomeço profissional ou como uma pausa forçada enquanto buscam se reinserir no mercado de trabalho. Para o protagonista criado pelo cineasta Park Chan-wook, no entanto, eliminar a concorrência pode ser a única alternativa. Em seu novo filme, o diretor sul-coreano aposta no peso dos detalhes e provoca o espectador a refletir até onde alguém seria capaz de ir para sobreviver.


A Única Saída, lançado internacionalmente como No Other Choice, é o mais recente trabalho de Park Chan-wook, cineasta consagrado por títulos como Oldboy (2003) e Decisão de Partir (2022). Diferente de suas obras mais abertamente sombrias, o longa segue por um caminho alternativo ao flertar com a comédia, ainda que a escuridão permaneça à espreita. Com um humor ácido, por vezes sufocante, o filme é capaz de reforçar a tensão constante de sua narrativa.



O longa-metragem desponta como um dos destaques da temporada de festivais e premiações. Além disso, a produção foi escolhida para representar a Coreia do Sul na corrida pelo Oscar — embora sem sucesso em garantir uma indicação.


A Única Saída é uma adaptação da obra The Ax, escrito por Donald E. Westlake, e ganha novas camadas sob a visão afiada de Park Chan-wook. A adaptação reforça a longevidade da história ao dialogar diretamente com questões contemporâneas, como o impacto da inteligência artificial sobre o trabalho e o aumento da competitividade no mercado, intensificando disputas que já não conhecem limites.



Descartável assim como o papel


(Divulgação / MUBI)

A Única Saída inicia apresentando um núcleo familiar aparentemente perfeito: uma mãe livre para se dedicar aos próprios hobbies, um marido provedor que garante estabilidade para que os filhos se concentrem em suas atividades e apoia a filha, vista como uma possível prodígio do violoncelo. Como não poderia faltar nesse retrato de ascensão socioeconômica, a família também ostenta símbolos de sucesso — dois cães de raça e uma casa ampla, adquirida após anos de esforço do protagonista.


Man-su, interpretado por Lee Byung-hun, soma 25 anos de dedicação à indústria do papel como funcionário da Solar Paper. Sua vida aparenta estabilidade absoluta, tanto no âmbito familiar quanto profissional: especialista reconhecido em sua área, chega a ser nomeado “Homem do Ano da Celulose”. No entanto, após a compra da empresa por empresários norte-americanos, esse cenário desmorona rapidamente.


Man-su é confrontado com uma realidade brutal: descobre-se tão descartável quanto o próprio papel ao qual dedicou grande parte da vida. Sem emprego, assim como muitos de seus colegas, seria razoável imaginar que esse momento representaria uma chance de recomeço ou de busca por novos caminhos. Mas não é isso que Man-su deseja.


O filme se constrói como um lamento ao mundo moderno ao transformar seu protagonista em um espelho do produto que ajudou a fabricar. A ironia é cruel: o trabalhador também é triturado e descartado pelo sistema. E o homem encarna uma dura constatação — no capitalismo, não importa o tempo de dedicação ou o nível de especialização; a estabilidade do proletariado é sempre ilusória, e sua queda pode ser tão veloz quanto sua ascensão.




É assim que o primeiro ato de A Única Saída nos prepara para as consequências dessa demissão abrupta. De maneira gradual, o filme retrata a degradação da confiança e humanidade de Man-su, atrelada à perda de sua função como mão de obra e provedor da casa.


O desemprego como uma tragédia cômica


(Divulgação / MUBI)

A família — assim como a própria Solar Paper — é forçada a realizar cortes de gastos: os dois cães, as aulas de tênis da esposa Miri (Son Ye-jin), compras no supermercado e até a assinatura da Netflix entram na lista de sacrifícios. Sem rumo após perder o emprego e, com ele, seu lugar na hierarquia familiar, Man-su opta por uma tentativa de reinserção no mercado nada convencional. Ainda assim, o filme não nos convida a julgar seus métodos, apenas a encarar o sistema que o empurrou até ali.


Quando questionado sobre a possibilidade de procurar emprego fora da indústria do papel, Man-su responde de forma obstinada que “não tem outra escolha”, ecoando a mesma justificativa usada pelos empresários norte-americanos antes de reduzir drasticamente a folha de pagamento. Agora, é ele quem se vê sem alternativas, convencido de que a empresa também não terá escolha a não ser recontratá-lo caso elimine o gerente da Papyrus Paper, o egocentrico Choi Seon-chul (Park Hee-soon) e os demais concorrentes à vaga.


(Divulgação / MUBI)

Conhecido por levar suas criações ao limite, Park Chan-wook utiliza o desemprego como catalisador para o completo desmoronamento de seu protagonista. Após uma sequência de tentativas fracassadas de se reinserir no mercado de trabalho, a “única saída” revela-se a mais improvável e, também, a única possível para retomar seu papel central dentro da família.


A iminente ameaça de perder a casa que tanto simboliza seu sucesso social funciona como o estopim definitivo para essa jornada sem retorno. Ao longo do filme, descobrimos que a residência foi construída no terreno onde seu pai criava porcos, que precisaram ser enterrados vivos após um evento trágico, levando o homem, em desespero, a tirar a própria vida.


Diante dessa premissa, muitos espectadores podem imaginar um battle royale corporativo, no qual o prêmio final é o cobiçado cargo de gerente. Não seria absurdo esperar Lee Byung-hun revisitando traços do impiedoso Front Man, de Round 6 (2021), já que ambos compartilham motivações semelhantes. No entanto, qualquer expectativa nesse sentido é rapidamente desmontada pelo filme.


Toda a obscuridade característica da filmografia de Park Chan-wook é aqui atravessada por situações surpreendentemente hilárias. Man-su não se transforma em um assassino frio da noite para o dia. Mesmo disposto a seguir com seu plano, ele hesita, se atrapalha e toma decisões que só dão certo graças a uma sorte quase constrangedora. Seu desejo de alcançar o alto escalão permanece intacto, mas sua humanidade ainda resiste, embora o filme deixe claro que ela pode não sobreviver até os momentos finais. A violência é contida, e o que poderia se tornar uma sequência de assassinatos meticulosamente planejados se transforma em um percurso caótico, repleto de erros, acidentes e reviravoltas.


O filme intercala duas batalhas paralelas do protagonista: seu “networking” nada convencional e sua gradual derrocada diante dos olhos da família — ou ao menos era isso que ele acreditava. Na prática, ambos os caminhos se alimentam mutuamente. Ao mesmo tempo em que precisa eliminar seus rivais, o roteiro aproxima o protagonista de suas vítimas: trabalhadores desempregados que também dedicaram anos à indústria do papel e aguardam uma nova oportunidade. Enquanto um sucumbe ao alcoolismo, o mesmo vício que Man-su luta para manter sob controle há anos, outro aceita trabalhos precários para conseguir sustentar a filha adolescente e preservar algum senso de dignidade.



Pouco a pouco, Man-su passa a se enxergar nesses homens, e essa identificação o sufoca, e também transmite isso ao público. Seus conflitos começam a transbordar para dentro de casa, como quando descobre a traição da esposa de um dos "concorrentes" e passa a suspeitar que Miri também o esteja enganando, imaginando um caso com o dentista do consultório onde ela passou a trabalhar após sua demissão. Ao mesmo tempo em que somos capturados por cenas hilárias, o diretor sabe construir um corte seco na atmosfera logo em seguida, fazendo as risadas serem substituídas por desconforto.


Um filme pensado nos mínimos detalhes


(Divulgação / MUBI)

Após 25 anos de dedicação à mesma empresa, Mansoo é abruptamente descartado. Coincidentemente — ou não —, A Única Saída também marca o reencontro criativo entre Lee Byung-hun e Park Chan-wook após 25 anos desde Joint Security Area (2000). A escolha do ator se revela especialmente acertada.



Acostumado a papéis mais sérios e com sequências de ação, Byung-hun demonstra aqui um domínio impressionante da comédia, sem jamais perder o peso dramático da narrativa. Por meio de sua atuação que acompanhamos, com desconforto crescente, a deterioração emocional de Man-su ao longo do filme. O ator entrega com precisão a complexidade exigida pelo personagem, transitando com naturalidade entre o absurdo e o trágico.


Visualmente, a produção é tão envolvente quanto seu roteiro. A fotografia e a encenação apostam em transições criativas e efeitos discretos, compondo um conjunto que reafirma a força do cinema enquanto linguagem. A Única Saída provoca aquela sensação rara de estar diante de uma obra pensada em todos os seus aspecto. Enquanto o elenco se destaca pela excelência das performances, é impossível ignorar o cuidado estético presente nos cenários, na paleta de cores e até na composição dos figurinos, sempre meticulosamente escolhidos para direcionar o olhar do espectador a símbolos que Park Chan-wook deseja que sejam notados.


O diretor reafirma sua genialidade ao brincar com os detalhes, deixando claro que nada está ali por acaso. O bigode orgulhoso de Man-su, exibido em momentos específicos e retirado quando o personagem é descartado; a dor de dente que ele insiste em ignorar, mas que retorna como um incômodo persistente; ou ainda a filha prodígio do violoncelo, que se recusa a tocar para os pais, mas revela seu talento em um momento inesperado. Cada elemento carrega um significado próprio e contribui para a construção da narrativa.


A Única Saída é o tipo de filme que convida a uma segunda sessão, apenas para descobrir o que mais Park Chan-wook escondeu entre uma cena e outra. Por outro lado, embora tenha mostrado tais refinamentos, peca em sua duração. Mesmo que tenha um roteiro envolvente, em certos momentos gasta tempo além do cenário em determinadas cenas, que parecem arrastadas. No fim, o longa-metragem passa a sensação de ser mais longo do que realmente é.


(Divulgação / MUBI)

Por fim, o longa expressa uma fúria latente contra sistemas econômicos cada vez mais desumanos, que descartam profissionais experientes e os empurram para um mercado de trabalho cada vez mais hostil, sobretudo para trabalhadores mais velhos. O filme evidencia como o trabalho não é apenas um aspecto da vida, mas um eixo estruturante que impacta múltiplos núcleos da existência do indivíduo, fazendo-o muitas vezes questionar a si mesmo.


A produção não se preocupa em atacar frontalmente o sistema, mas em expor as consequências sociais e psicológicas que o capitalismo imprime na mente do cidadão comum, moldando sua forma de viver e de enxergar a si mesmo. No caso de Man-su, o homem confiante perde não apenas o emprego, mas todos os símbolos que sustentavam essa identidade — do bigode à segurança emocional, dentro e fora de casa. E após chegar tão longe, fica o amargor do que resta para o protagonista.


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