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Por que "Decisão de Partir" foi esnobado no Oscar 2023? [Opinião]

Com um desempenho de bilheteria e crítica excepcional, a audiência ainda não entendeu porque "Decision to Leave" não recebeu uma indicação


(Reprodução / Korean Film Council)

Apontado como um dos favoritos do ano da crítica especializada, o filme do aclamado diretor Park Chan-wook, responsável por sucessos como A Criada (2016) e Oldboy (2003), Decisão de Partir foi lançado em junho de 2022 e sua recepção tem sido avassaladora. Conquistando notas de destaque e uma enorme audiência, o filme foi escolhido para representar a Coreia do Sul nos Oscars de 2023.


As expectativas, entretanto, não foram atendidas, e todos que apostaram em Decisão de Partir ficaram decepcionados quando, ao olhar a lista de indicados ao Oscar, o filme não foi contemplado com indicações em nenhuma das categorias, nem mesmo de Melhor Filme Internacional. Mas o que pode ter causado isso? O Café refletiu e pesquisou: por que um filme tão aplaudido por especialistas não foi capaz de segurar uma indicação? Leia mais sobre após a publicidade.



Decisão de Partir: a não-indicação é uma oportunidade perdida


(Reprodução / Korean Film Council)

Os Oscars são, historicamente, uma premiação que dá preferência a obras estadunidenses e de língua inglesa. Em 23 edições, somente três filmes em língua não-inglesa receberam o principal prêmio da noite, Melhor Filme, um deles sendo Parasita (2019). A divisão entre os prêmios de Melhor Filme e Melhor Filme Internacional faz parecer que, enquanto premiação cinematográfica, a Academia só reconhece os longa-metragens de seu próprio país, quando a realidade é bem diferente — opções muito competentes são lançadas todo ano fora da bolha estadunidense, e muitas vezes são ignoradas.


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Nas principais categorias, como Melhor Filme e Melhor Direção, cerca de 89% das indicações foram dadas a pessoas brancas e 1.4% a pessoas asiáticas, segundo dados da própria Academia e do site IMDB. O afastamento, muitas vezes proposital, de filmes feitos, produzidos, dirigidos e protagonizados por pessoas racializadas não é de hoje, e essa razão é apontada por muitos fãs de Decisão de Partir e do cinema asiático em geral como o porquê do filme não ter recebido uma indicação.


O sucesso de Decision to Leave foi igual, senão maior que o de outros indicados. Com uma bilheteria de aproximadamente 16 milhões de dólares (Conselho de Cinema Coreano, 2023), o romance foi exibido em diversos cinemas ao redor do mundo, inclusive em sessões especiais no Brasil. Além desses números, a crítica aclamou fervorosamente o trabalho de Park Chan-wook, rasgando elogios ao diretor. O filme foi exibido no Festival de Cannes, uma das premiações cinematográficas mais respeitadas da indústria e reconhecida por dar chance a obras fora do eixo estadunidense, e chegou a concorrer ao Palme D'Or, o prêmio mais importante da premiação. No site Rotten Tomatoes, dedicado às avaliações de críticos e da audiência sobre filmes, Decisão de Partir tem uma nota de 93% de aprovação pela crítica especializada.


O filme é uma caixinha de compartimentos secretos; quando você acha que entendeu tudo, outra dimensão se abre. [O filme] é engraçado, às vezes, mas só até um certo ponto: em alguma parte do caminho, ele se transforma num trabalho sobriamente formal, com um dos finais mais louváveis que você verá no ano.”

Stephanie Zacharek, crítica para a TIME Magazine


A trama envolvente — roteirizada por Jung Seo-kyung, que já trabalhou com o diretor em A Criada (2016) — que mistura romance e mistério instigou a audiência, que perseverou durante as quase três horas de duração do longa-metragem e fez a experiência valer a pena. O trabalho dos atores principais, Park Hae-il e Tang Wei, merece mais do que somente palmas. Eles foram capazes de transmitir a angústia e as complicações do relacionamento entre detetive e suspeita para quem assiste, emendando tudo com uma química de cair o queixo e impressionar.


Park Hae-il já é conhecido no cinema sul-coreano, tendo trabalhado em Memórias de Um Assassino (2003), do vencedor do Oscar Bong Joon-ho, e Tang Wei é uma atriz chinesa que também já atuou em filmes de sucesso. A escolha de uma atriz chinesa para uma produção sul-coreana é surpreendente, visto que os países têm um histórico de atrito, e a recepção positiva da atriz pela audiência sul-coreana é mais uma indicação que Park Chan-wook acertou em cheio.


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Se com todas essas honras e qualificações que, sob qualquer outra visão, seriam mais que suficientes para render uma indicação a ao menos uma categoria, por que a Academia resolveu não indicar Decisão de Partir? Uma possível resposta, apesar de clara e batida, ainda é triste: a aversão a produções não estadunidenses.


O cinema sul-coreano não é novato na cena. Não é referência no ocidente como o francês, apesar de receber as mais diversas honras por todo o mundo e provar ano após ano que é mais que competente, mas ainda tem sua honra e seus elogios. A barreira da língua, entretanto, parece ser maior que a apreciação pela sétima arte, e os fãs das obras sul-coreanas se entristecem ao perceberem que as premiações dos Estados Unidos não mudam. Na última década, ao todo 74 pessoas racializadas foram indicadas. Em 2011 — em apenas um ano —, 72 criadores brancos foram indicados, segundo dados levantados pelo website Insider em 2021.


Quando vocês superarem a minúscula barreira das legendas, vocês serão apresentados a muitos outros filmes incríveis.”

Bong Joon-ho, 2020, em seu discurso ao ganhar o Globo de Ouro


Decisão de Partir é um filme de mistério e romance que usa do clichê “Quem matou?” para avançar a trama, algo que Hollywood faz e ama. O filme também explora a dor da protagonista, cujo marido falece no início, além da divisão entre querer ajudar na investigação, ser a principal culpada e entender seus sentimentos pelo detetive. É o tipo de trama que, se protagonizada por atores estadunidenses e brancos, com certeza teria recebido mais aplausos e reconhecimento do que já recebeu.


É uma pena que a visão da Academia ainda seja tão pequena e limitada que não consegue reconhecer talentos e obras excepcionais que lhe são apresentadas. Filmes como Parasita (2019) e Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo (2022) — que apesar de pertencer à A24, produtora estadunidense, traz um elenco chinês e partes do filme faladas em mandarim/cantonês — são exemplos de que, muito lentamente, a cabeça dos que comandam os Oscars está mudando. É triste, entretanto, que, a cada ano, os países precisam escolher quem terá o destaque daquela vez.


Em suma, Decisão de Partir merecia um olhar mais benevolente por parte da Academia. Se um filme que atende os pré-requisitos e excede as expectativas da crítica não merece uma indicação, o quanto mais não estadunidenses precisam se esforçar para serem sequer considerados?



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