[Resenha] Livro “As irmãs de amarelo” traz retrato incômodo da juventude no Japão dos anos 90
Em novo romance da Intrínseca, Mieko Kawakami questiona até onde uma escolha pode ser realmente livre em meio a amizade, pobreza e criminalidade

(Divulgação / Intrínseca / Reiko Toyama)
Lançado no Brasil pela editora Intrínseca, As irmãs de amarelo, de Mieko Kawakami, chegou ao país ao longo de setembro de 2026. O romance, publicado originalmente no Japão em 2023, combina elementos de ficção literária e do romance policial para contar uma história sobre pobreza, amizade, desigualdade e relações entre mulheres. Vencedora do Prêmio Yomiuri de Literatura em 2024, Kawakami volta a explorar questões sociais que atravessam parte de sua obra, desta vez tendo como cenário principal a Tóquio do final dos anos 1990.
Em vez de apresentar a pobreza apenas como pano de fundo da narrativa, Kawakami faz dela uma força que interfere diretamente nas relações, nos desejos e nas decisões de suas personagens. Trabalho, dinheiro e sobrevivência aparecem constantemente associados à possibilidade, ou à impossibilidade, de construir uma vida diferente.
Leia também: [Resenha] "Limbo" mostra a delicada jornada de Deb JJ Lee pela identidade e pertencimento
É justamente nessa combinação entre questões sociais e uma narrativa de suspense que está uma das características mais interessantes do livro. As irmãs de amarelo não apresenta respostas simples sobre quem está certo ou errado. Pelo contrário, conforme a história avança, as fronteiras entre vítima e responsável, proteção e manipulação, amizade e dependência tornam-se cada vez menos claras.
O papel de Hana, Kimiko e o Lemon em As irmãs de amarelo
A história começa em abril de 2020 no início da pandemia de covid-19, quando Hana, aos 40 anos, encontra no noticiário o nome de uma pessoa que pertence ao seu passado. Kimiko Yoshikawa, então com 60 anos, está sendo julgada por agredir e manter uma jovem em cárcere privado. A notícia faz com que Hana volte às lembranças de sua adolescência e aos acontecimentos que marcaram sua vida mais de duas décadas antes.
O leitor é levado então a 1998, quando Hana tinha apenas 15 anos e vivia na periferia de Tóquio com a mãe, que trabalhava como atendente em um bar. Por esse motivo, Hana crescia em um ambiente com pouco dinheiro, além de pouca segurança e perspectivas para o futuro. É nesse contexto que Kimiko, uma conhecida de sua mãe, surge em sua vida.
A presença de Kimiko transforma a rotina da adolescente. Assim, as duas passam a administrar o Lemon, um pequeno bar localizado no bairro de Sangenjaya. Ao lado de Lan e Momoko, outras duas jovens que passam a integrar aquele círculo, Hana encontra algo que até então parecia faltar em sua vida: um grupo ao qual pertencer. O estabelecimento se transforma não apenas em fonte de renda, mas também numa espécie de casa e ponto de encontro para aquelas mulheres.
A sensação de segurança, porém, não dura para sempre. Depois que o Lemon deixa de funcionar, as personagens precisam encontrar novas maneiras de conseguir dinheiro. Dessa forma, Hana acaba entrando em esquemas criminosos envolvendo cartões, passando gradualmente de adolescente vulnerável a alguém que também exerce poder sobre outras pessoas. A transformação é importante para compreender a complexidade da protagonista: ela não permanece simplesmente no lugar de vítima, mas também passa a tomar decisões que afetam as pessoas ao seu redor.
Uma protagonista que também não é totalmente confiável
Um dos recursos mais interessantes utilizados por Kawakami é a construção de Hana como narradora pouco confiável. A história é contada a partir das lembranças da personagem, décadas depois dos acontecimentos. Isso significa que aquilo que o leitor conhece é filtrado pela memória de uma mulher que carrega ressentimentos, afetos e interpretações próprias sobre o passado.
A escolha faz com que a relação entre Hana e Kimiko permaneça cercada de dúvidas. Para Hana, Kimiko pode representar a mulher que apareceu em um momento de vulnerabilidade e ofereceu uma possibilidade de mudança. Ao mesmo tempo, suas atitudes também podem ser interpretadas como manipulação. Porém, o livro não entrega imediatamente uma resposta definitiva sobre essa relação.
Essa ambiguidade se estende às outras personagens. A amizade entre Hana, Lan e Momoko não é retratada como uma relação idealizada de sororidade em que todas estão sempre dispostas a proteger umas às outras. Existem conflitos, disputas por dinheiro, ressentimentos e diferenças de poder. A convivência funciona, em determinados momentos, como uma família improvisada, mas também pode se transformar em uma fonte de tensão.
Pobreza, gênero e sobrevivência em As Irmãs de Amarelo
A desigualdade social é um dos principais eixos do romance. O dinheiro está presente o tempo todo, seja nas dificuldades enfrentadas por Hana e sua mãe, seja nos negócios do Lemon ou nas atividades criminosas que surgem posteriormente. Para as personagens, dinheiro não significa simplesmente poder consumir mais. Ele representa segurança, autonomia e a possibilidade de escolher o próprio caminho.
Essa perspectiva também se relaciona diretamente à condição das mulheres retratadas por Kawakami. Hana, Kimiko, Lan e Momoko vivem em diferentes posições dentro de uma sociedade que oferece poucas alternativas para aquelas que não possuem recursos ou uma rede de proteção. O trabalho aparece como necessidade de sobrevivência, e não necessariamente como realização pessoal.
Nesse sentido, o livro questiona a ideia de que todas as pessoas possuem as mesmas possibilidades de escolha. Quando uma personagem aceita uma situação perigosa porque precisa pagar uma conta, por exemplo, a decisão pode ser jurídica ou moralmente questionável, mas não pode ser analisada sem considerar as circunstâncias que a produziram. É nessa zona de desconforto que a trama encontra boa parte de sua força.
Mieko Kawakami e a literatura japonesa contemporânea
Nascida em Osaka, no Japão, Mieko Kawakami é uma das autoras de destaque da literatura japonesa contemporânea. Atualmente vivendo em Tóquio, a escritora ganhou reconhecimento internacional principalmente após a publicação de Peitos e ovos, romance que se tornou best-seller e recebeu destaque do New York Times e da revista Time.

(Divulgação / Amazon)
Entre suas outras obras está Paraíso, que foi finalista do International Booker Prize de 2022. A autora também escreveu Todos os amantes da noite, finalista do National Book Critics Circle Award de 2023, na categoria ficção. Seus livros foram traduzidos para mais de 40 idiomas, o que ampliou a sua presença no mercado editorial internacional.
Kawakami costuma utilizar experiências e observações pessoais como matéria-prima para suas histórias, embora isso não signifique que seus romances sejam autobiográficos. Em entrevista à revista Quatro Cinco Um, a escritora afirmou que, ao escrever, busca suas próprias memórias e sentimentos, mas ressalta que não escreve sobre si mesma. A declaração ajuda a compreender uma característica recorrente de sua produção: o interesse pelo modo como as experiências individuais podem revelar questões sociais mais amplas.
Junto dos títulos Peitos e ovos, Paraíso, Todos os amantes da noite e As irmãs de amarelo, a autora possui uma produção que inclui romances, contos e poesia. Sua literatura é frequentemente associada a discussões sobre gênero, classe, corpo feminino e ética. Nisso, no Brasil, parte importante dessa produção vem sendo publicada pela Intrínseca.
Uma obra sobre escolhas que nunca são completamente livres, e que merecem atenção
As irmãs de amarelo não é, portanto, uma leitura que entrega tudo de imediato. A alternância entre passado e presente, os saltos temporais e a quantidade de informações apresentadas aos poucos fazem parte de uma construção que só se revela completamente conforme a história avança. É preciso acompanhar Hana com alguma paciência antes de entender onde Kawakami pretende chegar.
Conforme as relações entre as personagens ficam mais claras e novos elementos começam a modificar acontecimentos já conhecidos ao longo do livro, a história ganha outro ritmo. O leitor deixa de buscar apenas respostas para o que aconteceu e passa a se interessar pelas pessoas por trás daqueles acontecimentos, suas motivações, contradições e as circunstâncias que ajudaram a moldar as escolhas das jovens.
Dessa maneira, o romance se distancia de uma história policial convencional. O crime está presente, mas não é o verdadeiro centro da narrativa. Kawakami usa a investigação para falar sobre pobreza, desigualdade, amizade, pertencimento e, principalmente, sobre os limites da liberdade. Hana, Kimiko e as demais personagens não são apresentadas como boas ou más de maneira definitiva. Essa ambiguidade torna suas trajetórias mais humanas e impede que o livro ofereça respostas fáceis.
Talvez seja justamente essa a maior força de As irmãs de amarelo: a história não termina quando o mistério é esclarecido. As perguntas mais importantes permanecem depois dele. Até que ponto uma pessoa é livre para escolher quando suas alternativas são determinadas pela pobreza? Quanto de responsabilidade existe quando sobreviver é a prioridade? E o quanto realmente conhecemos as pessoas, ou até nós mesmos, quando olhamos para acontecimentos do passado?
As irmãs de amarelo é um livro sobre mulheres, escolhas e sobrevivência, mas também sobre a maneira como nossas lembranças e circunstâncias ajudam a construir quem somos. Se você procura uma história que combine suspense com crítica social e personagens difíceis de definir, vale dar uma chance a Kawakami.



![[Resenha] Em "Navillera", manhwa que inspirou K-drama, todos os sonhos se tornam possíveis](https://static.wixstatic.com/media/0df885_5c53c3c015a84ce0a3875c86f5020d0f~mv2.jpg/v1/fill/w_980,h_551,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/0df885_5c53c3c015a84ce0a3875c86f5020d0f~mv2.jpg)


Comentários