[Resenha] "Limbo" mostra a delicada jornada de Deb JJ Lee pela identidade e pertencimento
- Juliana Palmeirim da Silva
- há 1 dia
- 7 min de leitura
Graphic novel autobiográfica, publicada pela editora nVersos, é uma das estreias mais marcantes dos quadrinhos contemporâneos

(Divulgação / Amazon / Geeks Out)
Limbo (In Limbo), estreia do artista coreano-americano Deb JJ Lee, é uma graphic novel que combina sensibilidade narrativa, ilustrações de impressionante riqueza visual e uma honestidade rara ao abordar temas como imigração, identidade, saúde mental e pertencimento.
Lançada no Brasil pela editora nVersos em 2026, a obra chamou atenção não apenas pela qualidade técnica de seus desenhos, mas principalmente pela maneira como Lee transforma experiências extremamente dolorosas em uma narrativa humana, capaz de dialogar com qualquer pessoa que já tenha sentido não pertencer a lugar algum.
Em vez de recorrer a grandes acontecimentos ou momentos heroicos, a HQ constrói sua força a partir do cotidiano. Pequenos gestos, silêncios, olhares, conversas interrompidas e lembranças fragmentadas revelam a complexidade de crescer entre culturas diferentes, enfrentar expectativas familiares e tentar compreender a própria identidade durante a adolescência.
A narrativa acompanha uma jovem que parece existir constantemente em um espaço intermediário; ou seja, em um "limbo" emocional onde nenhuma resposta parece definitiva e onde cada passo em direção ao autoconhecimento exige enorme coragem. E, com isso, Deb JJ Lee constrói uma reflexão madura sobre amadurecimento, trauma, arte e esperança, com o objetivo de mostra que a reconstrução pessoal raramente acontece de maneira linear.
Entre dois mundos: a história contada em Limbo
A história de Limpo começa antes mesmo das grandes crises da adolescência. Ainda criança, Deb deixa a Coreia do Sul para viver nos Estados Unidos ao lado da família. Como ainda era muito jovem, a personagem não tem tantas lembranças consistentes do país natal ou da língua coreana. Cresce, portanto, de maneira distante das próprias raízes culturais, mas também incapaz de ter um autoconhecimento pleno como americana.
Essa condição de permanente deslocamento torna-se uma das bases emocionais da obra, e ajuda a explicar o sentimento constante de inadequação que acompanha a protagonista.

(Divulgação / Hyperallergic)
Ao ingressar no Ensino Médio, essa sensação se intensifica, pois é quando a personagem entra na adolescência, que é um dos momentos mais instáveis emocionalmente na vida. As amizades tornam-se complicadas, as dificuldades escolares aumentam e a relação com a mãe entra em um ciclo de conflitos cada vez mais frequentes.
Ao mesmo tempo, seus gostos pessoais são questionados. O violino, por exemplo, que era uma atividade que durante anos representou um espaço de conforto, deixa de oferecer qualquer sensação de pertencimento. Deb passa a viver cercada por expectativas familiares, cobranças por excelência acadêmica, inseguranças com sua aparência (principalmente devido a comparações com a estética ocidental das crianças que estudam com ela, e com a de uma outra criança asiática) e dúvidas sobre si mesma, sem conseguir encontrar um lugar onde realmente possa existir sem julgamento.

(Divulgação / Hyperallergic)
A graphic novel acompanha aproximadamente quatro anos da vida do autor, mostrando sua luta contra ansiedade, depressão e uma autoestima profundamente fragilizada. A narrativa também aborda episódios de isolamento social, microagressões sofridas por ser filho de imigrantes coreanos, dificuldades em compreender sua identidade cultural e conflitos constantes dentro de casa. Dessa forma, Deb retrata em Limbo episódios extremamente delicados, incluindo crises emocionais severas.
Porém, em vez de explorar o choque dessas experiências, o livro concentra sua atenção nas emoções que as cercam e nos longos processos de reconstrução que vieram depois.
Ao longo da obra, pouco a pouco, a arte passa a ocupar um espaço central na vida da protagonista: o desenho surge como uma forma de escapar da dor cotidiana e de expor os seus pensamentos. Ao descobrir nas ilustrações uma maneira de organizar sentimentos antes impossíveis de verbalizar, Deb inicia uma jornada de autoconhecimento que muda completamente sua relação com o mundo.
Além disso, um aspecto marcante da narrativa de Limbo é a maneira como JJ Lee evita dividir seus personagens entre heróis e vilões. Na relação com a mãe, por exemplo, há momentos de violência física e emocional mas, também, demonstrações genuínas de carinho e incentivo à carreira artística da filha.
Embora Limbo seja uma obra profundamente autobiográfica, seu maior mérito talvez esteja justamente em transcender a experiência individual. Deb JJ Lee escreve sobre acontecimentos muito específicos de sua própria vida (a imigração, a adolescência em Nova Jersey, as dificuldades familiares e os conflitos internos), mas constrói uma narrativa capaz de dialogar com qualquer leitor que já tenha experimentado solidão, insegurança ou a sensação de estar deslocado.
Ao final da leitura, torna-se evidente que a graphic novel não oferece soluções fáceis para os problemas apresentados. A terapia, o fortalecimento da autoestima e o desenvolvimento artístico aparecem como caminhos possíveis, mas nunca como respostas milagrosas. A reconstrução da protagonista acontece lentamente, marcada por recaídas, dúvidas e novos aprendizados.
Quando o desenho também conta a história
Se o texto de Limbo emociona pela sinceridade, os desenhos de Deb JJ Lee ampliam ainda mais o impacto da narrativa. Cada página demonstra um domínio impressionante da linguagem dos quadrinhos, seja na composição, iluminação, perspectiva e ritmo visual para transmitir sentimentos que muitas vezes dispensam qualquer diálogo. Em diversos momentos, bastam algumas sequências silenciosas para que o leitor compreenda completamente o estado emocional da protagonista.

(Divulgação / Hyperallergic)
Ainda, um dos elementos mais característicos da obra é sua opção por uma paleta monocromática em tons azulados e acinzentados. Os tons frios evocam solidão, introspecção e vulnerabilidade, ao mesmo tempo em que conferem unidade visual às mais de trezentas páginas da história. A ausência de cores vibrantes direciona o olhar do leitor para a expressividade dos personagens e para a riqueza dos cenários, e transforma a iluminação e as texturas em elementos narrativos fundamentais. A água, a luz do fim da tarde e as sombras dos ambientes tornam-se componentes essenciais da narrativa, e funcionam como extensões do estado emocional de Deb.
Além disso, a narrativa visual também se destaca pelo uso do silêncio. Diversas sequências dispensam completamente os diálogos e permitem que apenas a sucessão de imagens conduza o leitor pelas emoções da protagonista. Em muitos momentos, o cenário parece refletir aquilo que Deb não consegue verbalizar.
Da Coreia do Sul aos Estados Unidos: a formação de um artista
Deb JJ Lee nasceu em Seul, na Coreia do Sul, mas passou a maior parte da infância e da adolescência nos Estados Unidos, para onde se mudou ainda na infância com a família. A mudança precoce fez com que perdesse grande parte das referências culturais de seu país de origem, incluindo a fluência na língua coreana.
Ao mesmo tempo, sua condição de filho de imigrantes impedia que fosse plenamente aceita como americana. Essa experiência de viver entre duas culturas tornou-se um dos temas centrais de sua produção artística e, posteriormente, da graphic novel Limbo.
(Divulgação / Instagram - nVersos)
Durante a adolescência, Deb viveu em Summit, no estado de Nova Jersey, experiência que marcaria profundamente sua visão de mundo. Frequentando uma cidade majoritariamente branca e, aos sábados, uma escola coreana, a futura artista sentia-se deslocada em ambos os ambientes, assim como a sua personagem em Limbo.
Nesse cenário, a arte começou a ocupar um espaço importante em sua vida. Com o tempo, o desenho deixou de ser apenas um passatempo para tornar-se um instrumento para compreender melhor suas próprias experiências e imaginar futuros possíveis para si mesmo. Essa vocação artística levou Deb à Carnegie Mellon University, uma das universidades mais prestigiadas dos Estados Unidos nas áreas de design, arte e tecnologia. Em 2018, formou-se em Design, adquirindo uma sólida formação em comunicação visual, narrativa e processos criativos.
Após concluir a graduação, Deb JJ Lee iniciou a carreira profissional trabalhando como UX Designer no Vale do Silício. A experiência no desenvolvimento de produtos digitais ampliou sua compreensão sobre organização visual, composição e comunicação por imagens, competências que mais tarde seriam incorporadas ao seu trabalho como ilustrador e quadrinista. Atualmente, Deb vive em Brooklyn, Nova York, e, em paralelo ao trabalho comercial, continua desenvolvendo projetos pessoais voltados para histórias em quadrinhos e ilustrações autorais.
Identidade, representatividade e novos caminhos narrativos
Deb JJ Lee se identifica como uma pessoa trans não binária e utiliza pronomes neutros em inglês (they/them). Embora essa identidade seja hoje assumida de forma pública, a própria artista afirma que esse processo de compreensão aconteceu gradualmente. Durante o período retratado em Limbo, ainda utilizava pronomes femininos e vivia conflitos internos que só seriam plenamente compreendidos anos depois.
Curiosamente, a questão de gênero nunca é apresentada como tema central da graphic novel. Em vez disso, aparece de forma sutil, quase sempre implícita, nas reflexões da protagonista sobre pertencimento, identidade e desconforto com determinados papéis sociais. Essa escolha narrativa permite que o leitor acompanhe uma fase da vida em que muitas perguntas ainda não possuíam respostas claras.
Confira outras obras de Deb JJ Lee:
The Other Side of Tomorrow

(Divulgação / Amazon)
Depois da excelente recepção de Limbo, Deb JJ Lee voltou às livrarias em 2024 com The Other Side of Tomorrow, graphic novel escrita por Tina Cho e ilustrada por Deb. Diferentemente de sua estreia autobiográfica, o livro é uma obra de ficção inspirada em histórias reais de refugiados norte-coreanos, acompanhando personagens que arriscam a própria vida em busca de liberdade.
Ilustrações para grandes marcas e projetos editoriais

(Divulgação / debleeart)
Embora o reconhecimento atual seja pela sua produção nos quadrinhos, Deb JJ Lee construiu uma carreira sólida também na ilustração editorial e comercial. Ao longo de sua trajetória, colaborou com marcas como Apple, Google, LEGO e BMW, desenvolvendo ilustrações para campanhas, projetos institucionais e materiais de comunicação. Também teve trabalhos publicados em veículos como The New Yorker, The New York Times, NPR, Radiolab e diversas outras plataformas dedicadas à arte, cultura e jornalismo.
Limbo é uma estreia que impressiona pela maturidade narrativa, pela qualidade artística e pela honestidade emocional. Ao revisitar sua adolescência, Deb JJ Lee constrói uma história sensível, sem recorrer a respostas fáceis, e explora com profundidade as ambiguidades da memória, das relações familiares e dos processos de amadurecimento.
A graphic novel transforma experiências pessoais em temas universais. Texto e imagem se complementam de forma exemplar, com ilustrações que ampliam o impacto emocional da narrativa e revelam o domínio do autor sobre a linguagem dos quadrinhos.



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