top of page

"La Casa de Papel Coreia" já encontrou sua "Bella Ciao" — e tem relação com período sombrio do país

No lugar da música em italiano, o remake da Netflix fez uma homenagem a um pioneiro do folk rock e também do movimento hippie sul-coreano


(Divulgação/Netflix)


Seis meses depois da primeira parte, a Netflix liberou mais seis episódios de La Casa de Papel: Coreia. Baseada na série espanhola que virou fenômeno mundial, mas trazendo elementos da cultura sul-coreana, a trama continua de onde parou: em pleno assalto à Casa da Moeda Unificada, situada em uma fictícia zona livre entre as duas Coreias. Se, para além dos macacões vermelhos, máscaras estilizadas e codinomes de cidades, a obra original ficou marcada pela canção "Bella Ciao", o remake também encontrou um "hino" para chamar de seu.


Trata-se da música "행복의 나라로", lançada em 2007 por Han Dae Su. Em hangeul, o alfabeto sul-coreano, quer dizer "A Caminho da Terra da Felicidade". Já em inglês, é conhecida como "Into The Land Of Happiness".



Aparece pela primeira vez no início do oitavo episódio, o segundo da nova leva. No esconderijo onde o assalto está sendo planejado, o Professor (Yoo Jitae) informa aos recrutas que o Dia D já está definido e que agora podem beber e descansar. Durante a comemoração, Moscou (Lee Wonjong) fica bêbado e começa a balbuciar "Into The Land Of Happiness".


O grupo pede que continue, apesar de o homem insistir que não passa de uma "música velha". Persuadido por Nairobi (Jang Yoonju), Moscou se levanta e retoma a letra, até que todos se juntam a ele em uníssono.


(Divulgação/Netflix)

No final do mesmo capítulo, a obra de Han Dae Su surge novamente – e dessa vez para uma revelação bombástica. Se você ainda não assistiu, é melhor parar por aqui para evitar spoiler. Afinal, é ao som de "Into The Land Of Happiness" que o público descobre que o Professor é na verdade irmão de Berlim (Park Haesoo).


Em um flashback inesperado, ambos estão sentados lado a lado no que parece ser o sótão do esconderijo. Berlim toca algumas notas na gaita, depois o Professor murmura os versos iniciais de "Into The Land Of Happiness". Não demora para que Berlim o acompanhe, formando um dueto inspirado. Visivelmente felizes, brindam e comentam que o pai deles adorava essa música.


"Eu cantava com ele sem saber o significado", diz Berlim, propondo outro brinde "ao sonho nunca realizado" do pai. Ao que o Professor acrescenta: "E ao reencontro dos irmãos."



COMO A MÚSICA DE HAN DAE SU SE INSERE NO CONTEXTO DE LA CASA DE PAPEL?


Presente nesses dois momentos-chave, "Into The Land Of Happiness" não é uma canção qualquer. Seu intérprete é considerado o mestre do folk rock sul-coreano e pioneiro do movimento hippie no país durante os anos 1960. Embora "Into The Land Of Happiness" seja recente – de 2007 –, a carreira de Han Dae Su remete a um período bastante conturbado para a Coreia do Sul: a ditadura de Park Chunghee (1961-1979).


Nascido em Busan, em 1948, o artista se mudou com sua família para Nova York em 1958. Vivendo entre os EUA e a Coreia, foi influenciado musicalmente por grandes nomes como John Lennon, Bob Dylan e Leonard Cohen. A partir de 1968, "inaugurou" a cena folk em sua terra e, depois de cumprir o serviço militar obrigatório, lançou seus dois primeiros álbuns, Long-long road (1974) e Rubber Shoes (1975).


Embora não fossem explicitamente anti-governo, seus trabalhos eram críticos o suficiente para entrar no radar das autoridades. Seus dois álbuns seguintes acabaram censurados, forçando Han Dae Su a buscar exílio em Nova York. Mas o tiro saiu pela culatra: "Give me some water" ("물 좀 주소") and "The nation of Happiness" ("행복의 나라") se tornaram hinos da juventude sul-coreana.



Quanto a "Into The Land Of Happiness", escolhida para La Casa de Papel: Coreia, fala justamente sobre abrir a janela e se lançar no mundo. É um convite para ouvir os pássaros cantando, sentir a grama macia, dançar sob chuva e trovão, rir e chorar. É uma letra que fala de liberdade, amor, paz, alegria e futuro – temas recorrentes na trajetória de Han Dae Su e que, no caso dos ladrões comandados pelo Professor, representam o "final do arco-íris", a vida melhor que esperam ter depois do assalto.


Por sua vez, a música da versão espanhola não é cantada na língua materna, e sim em italiano – como o próprio título sugere. Se a composição de Han Dae Su já poderia ser considerada combativa, "Bella Ciao" é um símbolo de resistência mais forte ainda. Está ligada à mobilização popular que ocorreu na Itália durante a Segunda Guerra Mundial, para derrubar o regime fascista de Benito Mussolini.



Ao contrário de "Into The Land Of Happiness", cuja letra é mais lírica, "Bella Ciao" funciona quase como uma narrativa dramática. Há muitas histórias que explicam seu surgimento, mas a mais aceita é a de que era cantada pelas mondine no início do século 20. Quer dizer, mulheres italianas que trabalhavam em plantações de arroz sazonalmente, no norte da Itália.


Essa primeira versão trata das árduas condições que enfrentavam nos campos. Mais tarde, durante a Segunda Guerra, foi modificada para retratar a realidade daqueles que pegavam em armas contra Mussolini. Certamente você já ouviu a palavra partigiano em "Bella Ciao". Ela designa os membros da resistência organizada italiana, que estavam determinados a acabar com o fascismo mesmo que lhes custasse a vida.


Assim como a versão espanhola, La Casa de Papel: Coreia está disponível no catálogo da Netflix. O elenco ainda é formado por Jeon Jongseo (como Tóquio), Lee Hyunwoo (Rio), Kim Jihoon (Denver), Kim Ji-hun (Helsinque) e Lee Kyuho (Oslo).



138 visualizações

Comments


bottom of page