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[Resenha] Em "Se Não Podemos Viajar à Velocidade da Luz", a emoção e a memória são os maiores trunfos da humanidade

No livro de contos lançado pela Aleph no Brasil, a escritora Kim Cho-yeop faz o ser humano superar os maiores dos obstáculos


Em "Se Não Podemos Viajar à Velocidade da Luz", o maior trunfo da humanidade são a emoção e a memória
(Aleph/Divulgação)

Afinal, o que é e para que serve a ficção científica? Talvez existam muitas explicações técnicas ou bastante pessoais para a pergunta, dependendo de quem responderá; mas para a escritora sul-coreana Kim Cho-yeop, a razão pode estar na emoção e na vontade do ser humano de triunfar além dos limites terrestres. No livro de contos Se Não Podemos Viajar à Velocidade da Luz, lançado no Brasil em 2026, encontramos diversos exemplos de como o sci-fi existe de maneira muito criativa.


Publicado pela editora Aleph no nosso país, a obra de Kim Cho-yeop funciona para diferentes públicos: tanto para quem já mergulha em obras de ficção científica há muito tempo, quanto para quem está no início da aventura. E que aventura! Do espaço sideral às trends das redes sociais, e da nostalgia às possibilidades de viagem no tempo, Se Não Podemos Viajar à Velocidade da Luz mostra que, independentemente dos cenários e da tecnologia avançada, as emoções sempre tornarão os desafios da humanidade mais espetaculares.




Em Se Não Podemos Viajar à Velocidade da Luz, conservamos a memória para dar um salto ao futuro


O livro de Kim Cho-yeop é composto por sete contos de enredos diversos, mas com uma potencial lição em comum: o coração pode falar mais que a razão. Na história inicial, responsável pelo título da obra, acompanhamos uma inventora que busca se reunir com seus entes queridos há muito tempo em outra parte do universo. Ela quer, mais do que tudo, ser contemplada pela tecnologia de viagens espaciais de alta velocidade, mesmo que isso custe todo o tempo que lhe resta na terceira idade.


Este conto já nos prepara para o que virá nas histórias seguintes: o desejo insaciável da humanidade de superar obstáculos, por mais difíceis que sejam. Há mais de um conto no livro que explora o embate do homem contra tecnologias que nós mesmos criamos, e que se tornaram problemas que não foram mapeados anteriormente. É sobre conquistar objetivos e saciar nossos desejos intrinsicamente humanos, mesmo quando o avanço desenvolvido por nós vira uma tremenda dificuldade. Se a tecnologia deveria nos evoluir, por que parecemos cada vez mais separados?


Mas, se não podemos viajar à velocidade da luz, que "mesmo universo" é esse? Do que adianta? Por mais que conquistemos nossos lugares, por mais que a humanidade expanda sua presença no espaço, se a cada passo alguém sempre é deixado para trás (...) não estamos apenas aumentando, cada vez mais, o total de solidão espalhado pelo universo?


A humanidade é frágil, e isso é abordado de maneira criativa no conto Espectro. Aqui, uma exploradora espacial "naufraga" durante uma expedição, e passa a conviver com uma raça alienígena muito diferente de nós. Contudo, os seres de outra galáxia possuem suas próprias maneiras de expressar companheirismo, ternura e cuidado, e a protagonista da história entende que o amor pode ser uma linguagem universal, apesar das formas ímpares de um alien para demonstrá-lo. Nós somos os parâmetros para o que criamos; mas e para um ser de outro mundo?


A saudade que a exploradora de Espectro tem, pautada nos códigos e vivências que adquiriu na Terra, é transformada na saudade que os seres de Hipótese da simbiose têm de seu planeta de origem. Por meio de uma artista humana, as criaturas reproduzem cenários, traços da cultura e características geográficas de seu mundo como forma de passar uma mensagem. E eles estão mais conectados com a humanidade do que os cientistas desse conto podem conceber inicialmente.



A memória de um vira a do outro, e os sentimentos se misturam às máquinas e invenções cada vez mais curiosas. Se Não Podemos Viajar à Velocidade da Luz não é uma história de "capa e espada" com traços de sci-fi; o livro é um manifesto de como traços básicos dos nossos sentimentos são transponíveis para qualquer outro ser no universo, pois afinal, todos somos capazes de sentir algo.



Uma escrita leve e fluida tornam a experiência de leitura ainda melhor


Apesar dos plots por vezes mirabolantes dos contos, Kim Cho-yeop torna suas histórias acessíveis por meio de uma escrita muito fluida. Quando há explicações técnicas de como determinadas invenções funcionam, como nos contos Emoção Material e Achados e perdidos, o leitor não encontrará problemas, pois a autora é didática e prática com o que deseja mostrar em cada conto. Contudo, algumas coisas são explicadas até demais e perdem um pouco da "magia" da descoberta, como as emoções encapsuladas em bibelôs e itens colecionáveis virando trend em Emoção Material, que é o conto mais fraco.


Porém, a curiosidade é um elemento muito bem utilizado em Por que os peregrinos não retornam?, com facilidade o melhor conto da obra. Na trama, acompanhamos as descobertas da protagonista a respeito da sociedade de onde vem: um mundo superficial e de relações simplistas se comparado à Terra.



No desenrolar da história, as pontes entre os humanos e a raça da personagem principal se tornam mais sólidas, e a reviravolta trás uma das melhores passagens de todo o livro sobre conexão, influência e deixar no outro uma parte de nós. E no fim das contas, não queremos ser mais próximos uns dos outros numa contemporaneidade que parece nos afastar cada vez mais? O que ainda é preciso para nos doarmos por inteiros ao que o universo nos reserva no todo e em cada um de nós?



Se Não Podemos Viajar à Velocidade da Luz não quer reinventar a ficção científica. A obra de Kim Cho-yeop deseja apenas entender um pouco mais o que nos faz tão singulares diante da imensidão do espaço. E talvez a resposta esteja nos nossos gestos cotidianos, e na maneira com que amamos e vivemos em fraternidade: se importar com o outro é o que pode fazer a gente atravessar as dobras do espaço-tempo, assim como a tia da personagem principal de Minha heróina espacial cogitou fazer. Abraçamos a memória para alçar voos inéditos no desconhecido.


Não é a tecnologia que importa, mas sim como podemos utilizá-la de forma única para nos manter intrinsicamente humanos. Seja para se reunir com a família do outro lado do universo, ou criar laços com uma nova raça interplanetária, ou até mesmo para fazer as pazes com um ente querido já falecido: a ficção científica existe para se compreender o que, às vezes, a ciência é incapaz de explicar.


Se Não Podemos Viajar à Velocidade da Luz é uma leitura completa para os novatos e os veteranos do sci-fi, e talvez te faça enxergar os pequenos momentos de forma mais grandiosa.

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